segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Simultâneas

Neusa Schilaro Scaléa é a curadora de ambas as exposições que estão em cartaz neste momento na Pinacoteca Municipal de São Caetano. Abaixo, ela nos descreve seu olhar sobre cada um dos artistas e de suas respectivas produções.

Para você que já veio ou para você que irá visitar as mostras, uma boa leitura e uma boa reflexão!


Temos o privilégio de abrigar na Pinacoteca Municipal de São Caetano do Sul duas mostras que nos dão a oportunidade de fazer um contraponto bastante instigante. Na sala especial temos Diálogos com obras de Flávio Abuhab e no salão maior, quase uma retrospectiva do artista Inos Corradin, com a exposição Universo Lúdico de Inos Corradin.

Abuhab, conciso, cerebral, claro e conceitual. Suas inquietações e propostas são realizadas depois de pesquisas em seu próprio repertório de estudos e formação. Ideias de seu laboratório de imagens e registros próprios.

Este artista trabalha em sintonia com o seu entorno e com seu tempo; em sua obra não há figuração no sentido de representações conhecidas, se estão ali não são mais o que representam. Utiliza fotografias não como registro e sim como suporte, que submetem-se a intangibilidade da ideia. Primeiro, a ideação, depois, o material, a forma, a cor, como resultado e não como ponto de partida.

Simultaneamente e sob o mesmo teto, mas na sala maior, um artista que, tanto pelo seu percurso como pelo seu repertório, desenvolveu um trabalho bem diverso de Abuhab.

Inos bebeu em outras fontes e buscou outros caminhos. A figuração nunca o abandonou, quando quase escorregou para a abstração, o chiaroscuro, a velatura e a relação figura-fundo permaneceram. Aprimorou sua técnica em função das figuras e seu contato com as linguagens artísticas aconteceu sem intermediações e sem teorias. Inos se aprisionou na profissão de artista, tem os pés no chão. Flávio é artista sendo professor, estudando e ensinando arte, flutua no tempo presente.

Flávio, um artista ligado à universidade, estudioso, um acadêmico, não no sentido de quem produz, mas de quem ensina arte, faz exatamente desse elenco de conhecimentos, pesquisas e elaborações  a sua obra, por vezes clara e exata, por vezes hermética e fechada. Inos é o artista que saiu em busca da valorização do mercado, mantendo propostas e modelando, em épocas diversas, sua experiência estética única.

Se Flávio pode provocar certo desconforto intelectual e emotivo devido ao inusitado quando desloca o objeto sem deixar ao observador nenhuma referência, Inos também vai provocar estranhamento com a deformação das figuras, do fantástico e do maneirismo recorrente.

Flávio Abuhab,  um artista para o qual podemos usar a frase de Nicolas Bourriaud: “Ao invés desse ajoelhar diante das obras do passado, usá-las”. Ou ainda como nos diz Anne Moeglin-Delacroix: “Para os artistas conceituais, são as informações, textos, fotografias, fotocópias, esquemas, que documentam não tanto um objeto ou ação in absentia, mas a ideia, por natureza invisível”.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Um passado diferente

Neste post, a coordenadora da Pinacoteca Municipal de São Caetano, Neusa Schilaro Scaléa, dá a sua opinião sobre mudanças de comportamento da população com relação ao passado, ao antigo. E você, concorda com ela? Deixe-nos sua opinião!

Preservação dos Espaços de Memória

Desde as primeiras experiências de preservação de espaços públicos ou privados, essas ações foram muito bem aceitas e demonstraram grande importância social, especialmente para o bem-estar de moradores de áreas densamente povoadas. A partir de determinado período da História, as ações de resgate de edificações, ou até de grandes áreas, tornaram-se  vinculadores e suportes de ações sociais de interação entre os habitantes e sua cidade.

Não apenas regiões deterioradas pelo seu abandono como habitat, mas também símbolos e signos da ocupação territorial vêm sendo respeitados e conservados, não só como fontes de pesquisas, mas, e principalmente, para serem adequados e oferecidos como novo local de convivência e interação.

Ações que preservam pontos de referência da memória urbana despertam interesse dos poderes públicos, depois que estudiosos, arquitetos, historiadores e outros pesquisadores sociais demonstraram a valiosa relação que o cidadão mantém com os locais que fazem parte de seu entorno. O habitante torna sua a paisagem de seu percurso cotidiano e se interessa, de modo algumas vezes apenas subliminar, pela permanência desse entorno. E naturalmente sente quando as mudanças dessa paisagem são caóticas e inadequadas. Locais que os cidadãos sabem não lhes pertencer pela posse nominal registrada, mas que por frequentá-los - ter deles alguma referência – intuem que lhes diz respeito. Tomam posse deles algumas vezes porque são cenários de sua vida; são cenários palpáveis de fatos anteriores que lhes oferecem algum aconchego histórico, nicho de raízes comuns, nem sempre heroica ou reconhecida nos compêndios de História, mas importantes para grupos e indivíduos como atores nem sempre reconhecidos de seu tempo.

Hoje felizmente sabe-se e se respeita cada vez mais a paisagem urbana, porque já se entende que ela pertence ao habitante da cidade. O contribuinte, como é classificado nas frias anotações das secretarias de Estado, vai se tornando alguém a quem se devem satisfações pelas interferências nessa mesma paisagem. E essas são apenas algumas das razões do por que são sempre bem-vindas ações de preservação do patrimônio edificado ou mesmo de espaços de convivência como parques, praças, trechos de ruas e avenidas etc.

E assim no século XX, em vários pontos do planeta, a preservação ganhou adeptos não só entre poetas saudosistas, historiadores voltados aos grandes feitos que mudaram os rumos de um universo particular ou arqueólogos e estudiosos de arquitetura, mas também entre a população que, durante migrações forçadas ou não, buscam referências que lhes integre ao espaço que compartilham entre si.

Partilhar o espaço onde ocorreram eventos históricos ou apenas partilhar espaços onde se desenrolaram fatos cotidianos e amigáveis equivalem-se. São paisagens de memória e sua importância reside não só em sua utilização, mas no conjunto de fatores que lhes dão sentido.

Por outro lado, há o fenômeno pós-moderno, ilustrado pela proliferação de brechós, feiras de antiguidades, coleções etc. Objetos de uso cotidiano – nem tão antigos - tornados  obsoletos, desnecessários perante novas propostas, novos comportamentos e ações, já não são descartados com tanta facilidade, já não são relegados ao baú dos porões ou ao descarte puro e simples dos desmanches ou da reciclagem. Cada cidadão agora deseja ficar com um pouco de sua trajetória, ou seja, da trajetória de vida de seus antepassados ou antecessores, por meio de objetos-relatos. É o paradoxo de um período classificado como pós-moderno (embora esse termo seja contestado). Há a vontade extrema do consumo da última novidade ao lado da mais antiga peça, que anos atrás estaria reservada a museus, pouco frequentados ou esquecidos.

O crescente interesse por edificações antigas ou relevantes chega a transformar cidades inteiras em sítios preservados, que sensibilizam pessoas de outros lugares, turistas visitantes, e provocam nos próprios habitantes orgulho e respeito. Fotografar com um simples celular, em plataformas midiáticas de última geração um local, um objeto, um edifício que traz em si a feitura, os materiais e as intenções de séculos anteriores é tão sedutor como o último modelo de consumo. Mas há de se ter cuidado, pois modismos passam com facilidade e se esses signos ou símbolos não estiverem ligados a sua esfera de conceitos e ações determinantes serão apenas imagens sem valor, facilmente descartadas. Cabem aos estudiosos, pesquisadores, filósofos, antropólogos, historiadores e cientistas sociais reunir e aclarar as relações que dão sentido a esses signos.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Público cultural

Para esta semana, a Fundação Pró-Memória reproduz na íntegra um post do Blog Acesso, divulgado no último dia 13 , que trata de um livro sobre a formação de público para museus e espaços culturais.




O livro Que público é esse? – formação de públicos de museus e centros culturais trata de uma área sobre a qual pouca informação está disponível em língua portuguesa. A publicação aborda as práticas dos educativos de museus e centros culturais com foco na relação educacional e procura apontar como uma exposição pode se comunicar com diferentes tipos de visitantes.

Financiado pelo Instituto Votorantim por meio do Programa de Ação Cultural – ProAC, o livro traça um panorama sobre a relação dos museus com seus públicos e sobre qual o papel do educador nesse processo. De acordo com a publicação, conhecer as especificidades dos diferentes públicos que visitam esses espaços amplia a experiência da visita. Estratégias, oficinas, dicas de leitura e referências bibliográficas são também apresentadas para auxiliar a prática dos profissionais da área.

Saiba mais sobre a formação de educadores de centros culturais e museus neste post do Acesso.



Baixe o livro Que público é esse? – formação de públicos de museus e centros culturais por meio deste link.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Crítica de arte

Neste blog, a Fundação Pró-Memória já postou textos descritivos, crônica e até trechos de tese de mestrado. E, para continuar inovando e abrangendo essa diversidade de tipos de narrativa, divulgamos abaixo uma crítica da arte contemporânea.

Ao longo do texto, alguns questionamentos foram feitos pela autora Neusa Schilaro Scaléa. O que você tem a dizer sobre as indagações? Concorda com a posição do texto? Aguardamos os seus comentários!!!


A arte contemporânea vem por caminhos bem sedimentados. Para o historiador, o conhecedor de arte, o crítico, os estudantes, e demais apreciadores de arte, localizar obras ao longo do percurso do homem neste planeta não é mais difícil do que localizar o cinema que estará exibindo seu filme favorito. Basta consultar um site de buscas na internet e lá encontrará desde a chamada arte rupestre, passando pelos egípcios, gregos e romanos até chegar ao modernismo, sem contar a arte praticada na Ásia, na África ou na Oceania.

Mosaicos bizantinos, esculturas renascentistas, arquitetura gótica, pinturas expressionistas ou impressionistas, tudo isso nos vem à memória através de imagens, sejamos especialistas ou apenas apreciadores. Nessa melangerie, nesse pasticho, alguns tempos se confundem, se achatam e grudam na pasta do velho-renovado-de novo.

Estamos deixando a pós-modernidade, que se caracterizou pelos resgates, reimpressão, reinvenção, replicamento, cópia, imagens de terceira geração, interferência etc. Não seria mais o tempo do individuo solitário em seu ateliê. As obras ganharam enormes dimensões e trazem quase sempre propostas reeditadas. As performances. Actionart, arte povera, as instalações herméticas ou evidentes, o apossamento dos espaços urbanos com provocações e grafites. Isso tudo agora começa a deixar certo gosto de ranço, de passado que ainda não se foi, mas já está maduro para ir.

E o crítico de arte nisso tudo? Adaptando-se. E adaptando-se foi engolindo o sapo do já-visto-mas-reformado. E soubemos pela crítica o que estava acontecendo; porque Christo embrulhava pontes, telefones ou garrafas. Como reagir  diante de uma mesa vazia em um cubo branco como era chamado o espaço expositivo. Imagens e mais imagens, nosso deposito está abarrotado; e se armazenarmos na nuvem? Há  tempo de digerir, fruir tantas imagens que nos trouxe o moderno (que foi distinto em países e tempos diversos)? Imagens manipuladas a ponto de parecerem... não manipuladas. O olho da câmera é mais aguçado, vê muito mais e melhor que o olho humano desarmado. Mas não inocente.

Já no final do milênio a pergunta, a busca, o desejo, a pretensão a um novo desenho, uma nova proposta, um novo saber, enfim a arte contemporânea começa a bater a porta exigindo seu espaço.

E o crítico, o estudioso, o apreciador espera do artista uma resposta. Emergem as chamadas novas mídias e logo esses novos suportes estão suportando o mesmo peso.


E vamos em busca dessa arte!!!

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Confira opções de lazer para o feriado em São Paulo

Não há motivo para se chatear se você não for viajar no feriado de Corpus Christi. Esta é uma ótima oportunidade para curtir as opções culturais de São Paulo com conforto, sem trânsito e filas. Ou seja, o sonho de todo paulistano.

Abaixo separamos dez alternativas de lazer para os próximos quatro dias. Se você tiver uma ideia legal, nos escreva. A intenção é que este post seja complementado com as dicas dos leitores.

Corteo – O espetáculo da trupe canadense Cirque du Soleil, criado em 2005, atualmente está em turnê no Brasil (serão visitadas seis cidades no total). Esta é uma das grandes atrações de São Paulo para o feriado. O show ficará até 14 de julho no Parque Villa-Lobos
Mais informações: http://corteobrasil.com.br/

Rei Leão – Em cartaz no Teatro Renault, o musical, baseado no desenho produzido pela Disney, já foi visto por quase 65 milhões de espectadores em todo o mundo e é ganhador de 70 prêmios.

Cai Guo–Qiang – Da Vincis do Povo (Peasant da Vincis) - Internacionalmente reconhecido, o artista Cai Guo–Qiang apresenta sua primeira exposição individual no Brasil. Entre os trabalhos expostos no Centro Cultural Banco do Brasil estão desenhos feitos com pólvora. A exposição segue até o dia 23 de junho. Há também uma mostra de cinema rolando no local.

Comedians - Com menos de um ano de existência, a casa já se tornou ponto de referência para a comédia de stand-up. Haverá apresentações nos quatro dias do feriado.
Mais informações: www.comedians.com.br

Sala São Paulo – Haverá ensaios e concertos durante o Corpus Christi. A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo tocará sob a regência da maestrina mexicana Alondra de la Parra, e contará com a participação da soprano Carmen Monarcha.

Masp – Amanhã (30), sexta (31) e sábado (01 de junho), o público poderá ter acesso a todas as exposições em cartaz no Masp (Museu de Arte de São Paulo). Chama atenção a “SÉRIES BÍBLICA E RETIRANTES”, com 11 obras de Candido Portinari.

Se Beber Não Case – Parte 3 – Entre os lançamentos do cinema deste final de semana está “Se Beber Não Case – Parte 3”. A première do longa, que contou com a presença dos principais atores, ocorreu na noite de ontem, no Cine Odeon, no centro do Rio de Janeiro.

Alô, Dolly! - Outro espetáculo que está em alta em São Paulo e que é uma ótima pedida para este feriado é o “Alô, Dolly!”. No elenco estão Miguel Falabella e Marília Pêra. A peça é encenada no Teatro Bradesco, localizado no Bourbon Shopping.

MAM – Opção cultural para os próximos quatro dias é o Museu de Arte Moderna, que traz as exposições “Alex Vallauri: São Paulo e Nova York como Suporte”, “Lady Warhol” e “Rodrigo Oliveira – Boa Vizinhança”. O restaurante também ficará aberto durante o feriado.
Mais informações: http://www.mam.org.br/

Parada Gay – Marcada para o domingo (2 de junho), a Parada do Orgulho Gay promete ser a principal atração da cidade neste dia.  Quatro milhões de pessoas são esperadas pela organização do evento.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Uma outra realidade

Neste post, a Fundação Pró-Memória apresenta o texto de Eliane Mimesse sobre a realidade das crianças em São Caetano do Sul no século XIX. Esperamos que aproveitem a leitura!!

Lembrando que textos voltados à memória e à arte não só de São Caetano, mas também das demais cidades do Grande ABC e de São Paulo, podem ser enviados para o email jornalismo@fpm.org.br. A Fundação aceitará qualquer tipo de texto - crônica, artigo, reportagem. Não há um número mínimo ou máximo de caracteres.


A dura sobrevivência das crianças no núcleo colonial de São Caetano

Profª Dra. Eliane Mimesse*

*É autora do livro “A Educação e os Imigrantes Italianos: da escola de primeiras letras ao grupo escolar”, da Editora Fundação Pró-Memória.

As crianças que viveram no núcleo colonial de São Caetano do Sul, nas últimas décadas do século XIX, tiveram suas vidas sempre acompanhadas pelos altos índices de mortalidade infantil. Era corriqueira também a contratação das amas de leite (mães que perderam seus filhos e podiam amamentar outras crianças que conviviam com doenças e mortalidade). Não era raro que essas mulheres tivessem perdido um ou mais filhos no nascimento ou antes deles completarem um ano de idade.

Giacomo Garbelotto, um dos antigos colonos de São Caetano, enfatizou essa situação em uma carta para um amigo, datada em 14 de fevereiro de 1889, na qual escreveu: “Sem poder encontrar trabalho e com a perda dos próprios filhos, de sete e oito anos, (...) estou aqui com Giacomo Dal Cin, que tem a filha doente e uma morreu e a mulher está bem e te saúda”.

Nessa época, a causa das mortes era devida às moléstias mais comuns como febre tifóide, malária, febre amarela, varíola e coqueluche. Muitas das crianças morriam e os pais nem sabiam qual era o motivo real, pois não existiam médicos residentes na localidade de São Caetano. Em alguns dos depoimentos analisados, verificou-se que as causas das mortes eram as mais diversas. Temos como exemplo o acontecido com o irmão mais velho de dona Joana Fiorotti Zanini, que morreu depois de levar um coice de um burro na cabeça. Há ainda o caso de dona Irene Marques Biagi que contraiu uma doença, que poderia ser pneumonia, pouco antes da viagem de vinda da família para o Brasil. Nesse mesmo depoimento, ela relata que seu irmão faleceu com sarampo, após terem se instalado no país há uma semana.   

Encontraram-se vários relatos descrevendo que as famílias eram numerosas. Nesse sentido, a inexistência da assistência médica institucionalizada em São Caetano contribuía para o aumento das taxas de mortalidade e de moléstias. Algumas pessoas assumiram as funções de benzedeiros e de parteiras. Essas últimas eram senhoras que ajudavam mulheres durante o nascimento do bebê, e faziam o possível para que a mãe e a criança sobrevivessem.

Em São Caetano, nessa época, não havia nenhuma parteira. As mulheres que tinham condições de saúde para se locomover iam até a casa da parteira que ficava do outro lado do Rio Tamanduateí, em São Paulo. Ou então ela era chamada e trazida de charrete para fazer o parto. Segundo dona Joana Fiorotti Zanini, sua mãe “foi na casa da parteira, que tinha um quarto de propósito para as mulheres conhecidas”.

A morte prematura de filhos recém-nascidos possibilitava que essas mães assumissem um novo tipo de trabalho, considerado relevante para a sociedade da época: o de amas de leite. A prática de amamentar os filhos dos mais abastados existia no Brasil desde os primeiros tempos da colonização portuguesa. As escravas africanas adotavam a função de amas de leite para assim alimentarem os filhos das famílias brancas, e, consequentemente, acabavam prejudicando o aleitamento de seus próprios filhos. Prevaleciam críticas a esta postura feminina da elite, pois as italianas, assim como as escravas africanas, eram consideradas saudáveis a tal ponto de poderem assumir o mesmo posto da mãe no quesito da amamentação. Dona Joana relata que sua “mãe foi ama de leite quando um filho dela morreu [....] Não sei se ele nasceu morto ou se morreu em seguida. Sei que ela tinha muito leite. E, naquele tempo, os ricos não amamentavam os filhos, pois tinham uma ama em casa”.

Como a alta taxa de mortalidade infantil fazia parte do cotidiano, existiam padrões de comportamento aceitos e seguidos por todos. Por conta desse índice, não havia uma preocupação ampla por parte das famílias com o imediato registro oficial dos nascimentos. As crianças eram batizadas na Igreja de São Caetano e quando o pai da família tivesse tempo disponível, se deslocaria até o Tabelionato, localizado na cidade de São Paulo, para registrá-las. Essa ação poderia ocorrer no mês seguinte ou anos depois.

No entanto, os nomes das crianças batizadas e consequentemente registradas no livro de batismos da Igreja de São Caetano nem sempre eram os mesmos nomes pelos quais eram registradas no Tabelionato de Registro Civil. Foi o que ocorreu com o senhor Verino Segundo Ferrari, que somente soube que o seu nome era Verino ao solicitar a certidão de nascimento para se alistar no serviço militar. Nesse caso, o tempo entre o seu nascimento e o registro no órgão oficial foi quase que de imediato, mas o nome da criança registrada no tabelionato era diferente do nome do registro de batismo na igreja. O uso de ‘Segundo’ indicava que existiu outra pessoa na família com esse nome. No caso de Verino, era um tio. Desse modo, ele era o segundo de uma mesma família a adotá-lo.

Esse assunto nos remete também a refletir sobre a inabilidade dos funcionários dos tabelionatos na época. Grande parcela dos equívocos nas grafias com relação a nomes e sobrenomes estrangeiros ocorria pela má compreensão na pronúncia dos imigrantes. Os funcionários de registro civil não sabiam como escrevê-los corretamente, sendo que, muitas vezes, pela dificuldade do idioma, acabavam por registrar denominações que consideravam corretas, ou mesmo com uma ordenação equivocada, escrevendo o sobrenome como se fosse nome e vice-versa.

Mas, para contribuir com essa complexidade dos registros de nascimentos, é necessário explicar que, nessa época, em algumas regiões da Europa, o comum era se escrever primeiro o sobrenome e depois o nome na assinatura de quaisquer documentos.

A importância do sobrenome era expressar a linhagem de uma determinada família, remontar sua origem e vincular o indivíduo a localidades ou regiões. Como exemplo para essa situação temos a listagem com a relação de moradores de São Caetano que assinaram, em 1883, um abaixo-assinado. Algumas das 41 assinaturas estão aqui reproduzidas: “Braido, Giuseppi; Garbeloto, Antonio; Baraldi, Primo Secondo; Visentin, Pietro; Roveri, Filippo; De Nardi, Celeste”.

Pode-se ressaltar ainda que, muitas vezes, as crianças recém-nascidas eram batizadas na igreja e registradas no tabelionato apenas para não morrerem sem os sacramentos.

Vemos que os problemas com as crianças eram diversos: alto índice de mortalidade infantil, inúmeras doenças, além dos problemas com seus nomes e sobrenomes. Mas, apesar de todos esses acontecimentos, muitas delas sobreviveram, tornaram-se adultos e em suas memórias ainda guardam o cotidiano da época. 

terça-feira, 21 de maio de 2013

Para ler, respirar e se divertir


Escrever exercitando o livre arbítrio e a imaginação, tudo misturado e temperado com humor, suspense e nonsense, como pode acontecer nos livros. Foi assim que desenvolvi a instalação e o texto abaixo para o projeto Letras da Imaginação, da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul, em parceria com Biblioteca Paul Harris, Academia de Letras da Grande São Paulo e Academia Popular de Letras. Ao entrar no prédio da entidade, o visitante encontra no hall uma grande cascata de livros, dois displays em forma de roupas confeccionadas com livros, ao lado dos livros-relicários e livro do artista, criados por Renato Brancatelli e Regis Ribeiro, respectivamente. Agora, antes começar, preste atenção na sua respiração... inspire.... expire... Boa leitura!

dixitque Deus: ‘fiat lux!’ et lux facta est.

João Alberto Tessarini*

publicitário da área de criação, redator e designer gráfico. Artista plástico, desenhista, escultor, gravador, com participação em exposições coletivas e individuais. Criador do Hib, o pássaro com dois corações, anfitrião do Ateliê Pedagógico da Pinacoteca Municipal de São Caetano do Sul.

Há muito tempo, numa galáxia distante... Nada menos original para começar esse texto, nada mais forte para contextualizar o que virá e que vai abalar a história da humanidade como a conhecemos hoje. Mas vamos lá, não tema, leia. Leia bem devagar: b  i   b   l   i   ó   f   i   l   o. Agora, feche os olhos e preste atenção na sua respiração, acompanhe o ar entrando e saindo dos seus pulmões.........inspire............expire...........faça isso durante dez segundos. (.......................................................) Fez? Não!? Por favor, não é brincadeira, é importante! Antes de continuar a leitura, faça esse exercício. ( ........................................) Fez? Ótimo. Agora podemos continuar. Leia bem devagar: b i  b   l   i   ó   f   i   l   o. No dicionário você encontra a seguinte definição: pessoa que tem amor aos livros – colecionador de livros.
Essa instalação – uma grande cascata de livros e displays em forma de roupas confeccionadas com livros que continuam expostos no hall da Fundação Pró-Memória - foi pensada para comemorarmos o “Dia Internacional do Livro”, oportunidade para fazermos uma reflexão sobre o nosso protagonismo desde o Jardim do Éden, registrado em prosa e verso, uma saga que tem gerado justamente os livros, em número impossível de precisar, e homenagear os “humanuslerolerum” que já estão entre nós há muitos séculos, comunicando-se através dos livros e de outras plataformas e que hora dessas podem fazer um contato imediato de primeiro grau, uma grande celebração. Primeiro o olho no olho, em seguida, e eu acredito nisso, um grande e caloroso abraço. Desse abraço para o grande salto quântico da humanidade. Exagero? Ficção científica? Conto, romance ou um haikai do Mário Quintana: “Em meio à ossaria uma caveira piscava-me. Havia um vagalume dentro dela.”
Com certeza você já teve um livro nas mãos, independente de ser um bibliófilo. Com certeza já necessitou saber o significado de uma palavra. Gosto muito de dicionários: cas.ca.ta / sf (ital cascata) 1 Queda de água, natural ou artificial, que se precipita de pequena ou grande altura. 2Eletr Arranjo das partes de um circuito ou elementos em um circuito, de modo que a corrente toda passe através de cada parte ou elemento sem divisão ou ramificação. 3gír Parolagem, bazófia, conversa-fiada. Conto da cascata, gíria entre ladrões, certo tipo de vigarice. (dicionário Michaelis).
dixitque Deus: ‘fiat lux!’ et lux facta est. E Deus disse: “faça-se a luz!” e a luz foi feita (Gênesis 1). Como estou escrevendo com o livre arbítrio concedido, portanto, posso especular sobre a cena do Fiat Luxe e correr o risco de escrever que foi assim – No começo existia Deus, que sempre existiu, em um grande lugar escuro como breu e nessa escuridão um casal nu. Daí, Deus que, entre outros poderes, enxerga no escuro disse, olhando para o casal: 'Faça-se a luz'. E a luz se fez. O casal entreolhou-se do Caburaí ao Chuí e não entendeu nada. Era o começo dessa nossa deficiência de olhar e não enxergar as coisas. O casal, que já tinha na gênese do seu DNA a curiosidade, voltou a se olhar e, em seguida, esmiuçar o entorno onde chamou a atenção uma sedutora maçã, que eu esqueci de dizer que já estava na cena ainda sem a luz. Assim como já estavam outros animais, plantas, minerais e todas as possibilidades para todas as invenções que viriam. Depois de deslumbrarem tudo, bateu aquela sensação de fome e os dois instintivamente se engalfinharam, rolaram pelo chão e ao mesmo tempo agarraram a maçã e deram a primeira mordida do Universo, assim como a conhecemos. Então, Deus ponderou que o casal deveria ter um norte além de comer as maçãs que viriam e determinou que eles fossem até a super, hiper, megabiblioteca, Paradise Books, e vestissem uma das roupas mágicas, aquelas confeccionadas com livros, que isso abriria todas as portas e janelas do Paraíso para que a luz, em todo o seu esplendor, iluminasse aquele lugar que foi criado para eles. Um lugar para curtir e compartilhar diferenças culturais, uma antropofagia das ideias. Tudo era muito perto no Paraíso, disso surgiu a inspiração para um livro famoso intitulado “Longe é um lugar que não existe”, escrito por Richard Bach. Voltando um pouco, tudo era muito perto da estação Paraíso do Metrô, foi subir via escada rolante, atravessar a rua e entrar na biblioteca que não fechava nunca, e o casal primordial escolheu suas vestimentas poderosas entre milhares de prateleiras onde também encontravam-se papiros egípcios, tabuletas cuneiformes dos sumérios, os clichês e os tipos móveis do Gutenberg, gibis com os super-heróis, contos de fadas, sinopses de obras em aberto, como a Bíblia e o Alcorão, para quem quisesse escrever algum capítulo inspirado diretamente por Deus, e uma prateleira com iluminação diferenciada, onde acima dos livros expostos via-se uma placa de madeira, letras entalhadas em baixo relevo, com a seguinte inscrição: Livros que serão queimados na Idade Média e outras. Enfim, objetos sagrados à disposição de todos para o exercício da organização dos pensamentos. 
Jean-Philippe de Tonnac, no livro “Não contem com o fim do livro”, escrito por Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, cita Fernando Bez que, por sua vez, cita em sua História da destruição dos livros João Crosóstomo evocando algumas pessoas, no século IV, que carregavam em volta do pescoço velhos manuscritos para se protegerem do poder do mal.
Mesmo correndo o risco de ser queimado em alguma fogueira, afirmo que somos os tipos móveis do Johannes Gutemberg. Juntos, temos criado, formado palavras para expressarem nossa natureza como “artesãos do oitavo dia” (expressão cunhada pelo filósofo Hubert Reeves com livro de mesmo nome) Somos múltiplos, nascemos para compartilhar e curtir nossa natureza divina. Penso que, usar a expressão natureza divina é apropriado diante da constatação da nossa pequenez em relação a grandeza do Universo. Paradoxo? Não quando entendemos que somos partícula, uno, verso. Reafirmando o nosso protagonismo dentro de uma história tão grande, com a necessidade de tantas palavras, e baseado nas comprovações científicas do uso de extensões, como próteses e ferramentas (leia o livro "Muito além do nosso eu", do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis), é que ouso convidar você a perceber-se em constante e infinito movimento de expansão e recolhimento. De novo, cinco segundos, inspire...... expire. Somos não só a humanidade, somos os animais, os minerais, os fenômenos meteorológicos, as alegrias e tristezas, o iPad, o cristal líquido, os automóveis, a nanotecnologia, os roteiros das viagens, o balanço no quintal, o movimento do balanço, o lago onde mergulhamos e a água que bebemos, o chão que pisamos, somos aquele pó da frase famosa (Gênesis 3.19), etc, etc (Et cetera também et cætera - et cet·er·a neutro plural), de forma reduzida etc., é a expressão de origem latina que significa "e os restantes" ou "e outras coisas mais". É normalmente utilizada no final de uma frase para representar a continuação lógica de uma série ou enumeração – fonte: Wikipédia, a polêmica enciclopédia eletrônica). Somos os livros que escrevemos e lemos. Por isso, assim como Umberto Eco e Jean-Claude Carrière disseram em “Não contem com o fim do livro”, eu digo, respondendo à questão colocada no início desse texto, um dia, por entendimento, por amor à tudo que significa a nossa existência, independente dessa ou daquela plataforma para a nossa expressão, ou até da não necessidade de próteses e ferramentas para isso, acrescentaremos à nossa denominação homo sapiens o sentido da palavra bibliófilo. Só não sei se antes ou depois.
Já que estou escrevendo, deixa experimentar: homo sapiens bibliófilo..... bibliófilo homo sapiens. É, não sei. Só sei que preciso citar novamente o general romano Pompeu (em 70 a.C.) que inspirou o português Fernando Pessoa: Navigarenecesse, vivere non necesse. Navegar é preciso, viver não é preciso. Consciente da minha ignorância inata, que é força propulsora, necessito continuamente experimentar das muitas artes, entre elas ler e escrever, inspirar e expirar. Tchau, arrivederci. Grande e caloroso abraço.

Notas importantes:
A -Humanuslerolerum -homo sapiens grafado em contração e pleno em sabedoria= humanus / lero= pensar / lerum= falar, ou seja, criatura em liberdade, plena em sabedoria, que pensa e fala. 
B - O menino que habita em mim vai reler a História sem fim do Michael Ende.
C - “ Como é belo um livro, que foi pensado para ser tomado nas mãos, até na cama, até num barco, até onde não existam tomadas elétricas, até onde e quando qualquer bateria se descarregou. Suporta marcadores e cantos dobrados, e pode ser derrubado no chão ou abandonado sobre peito ou joelhos quando caímos no sono”. Depois de ler essa frase de autoria do Umberto Eco, entalhada na parede principal da lanchonete da biblioteca, o casal do Paraíso, ambos nascidos no mês de Dezembro, portanto sob o signo de Capricórnio, e tudo indicando serem do Segundo Decanato, como eu, não resistindo que estavam dentro da biblioteca, foram até a prateleira dos jornais e no ESTADÃO de 18 de abril de 2013 leram as reflexões horoscopistas do bruxo Quiroga: “Dizer as palavras certas é o que todo mundo quer. É a esperança de a alma ser tão sedutora que as suas palavras se transformam em energias irresistíveis. Isto é completamente possível, mas é raro acontecer.” Ele disse “raro”, então inspire..... expire... é importante que você tome posse de toda a sua natureza, agora, aceite o meu convite e vamos em busca desse Santo Graal.
AnnoDomini 2013 – escreveu: João Alberto Tessarini


Crédito da foto: Priscila Tessarini