quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Homem da Capa Preta

Para esta semana, separamos para vocês outro artigo da historiadora e pesquisadora da Fundação Pró-Memória Priscila Gorzoni. Desta vez, além de contarmos a história de uma figura curiosa de São Caetano do Sul, ela também pode ser considerada como amedrontadora. E eis que lhes apresento, o Homem da Capa Preta!!!

O Homem da Capa Preta

O Homem da Capa Preta é um dos personagens mais enigmáticos da década de 1940. Ele se tornou tão marcante na história de São Caetano do Sul, que pode ser considerado um mito regional. Assim como ocorre com outros seres misteriosos, poucos se arriscam a falar dele e os relatos lidos nunca são muito aprofundados. No entanto, esse mito é compartilhado e acreditado por toda a comunidade da qual faz parte. Como diria o sociólogo e antropólogo, Erving Goffman[1] em A representação do eu na vida cotidiana, “quando um indivíduo desempenha um papel, implicitamente solicita de seus observadores que levem a sério a impressão sustentada perante eles”. É exatamente isso o que acontece com o Homem da Capa Preta. Todos sabem que é um personagem e se torna importante à medida que a comunidade o transforma em algo real que, por meio de sua postura, traz à tona os valores desta mesma comunidade.

Goffman explica que quando um indivíduo, ou, no caso, o Homem da Capa Preta apresenta-se diante dos outros, seu desempenho tenderá a incorporar e exemplificar os valores oficialmente reconhecidos pela sociedade e até realmente mais do que o comportamento do indivíduo como um todo.  

Além de reforçar os valores existentes nesta sociedade, o Homem da Capa Preta faz parte da história da cidade, encaixa-se na área da Cultura Popular, assunto tratado pelo folclorista Luís da Câmara Cascudo. Para aqueles que subestimam os mitos e assombrações, eles participam da essência intelectual humana e não há momento na história do mundo sem sua inevitável presença. “A elevação dos padrões de vida, o domínio da máquina, a cidade industrial ou tumultuada em sua grandeza assombrosa são outros tantos viveiros de superstição, velhas, novas, readaptadas às necessidades modernas e técnicas”, ressalta o historiador José Odair.

Na tentativa de resgatar um pouco desses mitos e superstições, foram lidos muitos artigos sobre São Caetano na busca desses personagens assombrosos, mas pouca informação foi encontrada sobre o assunto. Por isso, foram ouvidos vários moradores antigos e novos da cidade para que nos dessem seus relatos, cheios de pormenores, surpresas e curiosidades...

Assombrações no folclore - Se o folclorista Luis da Câmara Cascudo tivesse vindo para São Caetano mapear seus mitos assombrosos, certamente não deixaria de fora o Homem da Capa Preta, que entraria no ciclo da angústia infantil. Embora esse personagem não seja bem uma assombração, já que era alguém que se vestia ou fantasiava-se de Homem de Capa Preta, podemos considerá-lo um mito ou uma lenda.

Dentro do ciclo da angústia infantil, onde se encaixaria esse personagem, encontramos mitos e seres assombrosos, que têm por objetivo educar crianças e mulheres por meio da sugestão do medo. Sua presença assustadora impunha uma espécie de toque de recolher aos moradores de São Caetano nas décadas de 1920 e 1930.

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come... - Nas décadas de 1920 e 1930, as mulheres eram as mais atemorizadas. Elas evitavam sair de casa após as 22h, por medo de encontrar o Homem da Capa Preta, como é conhecida uma figura sem rosto, magra, que vagava pelas ruas da cidade nas altas horas da noite, vestido com o item que o caracterizava. As pessoas que encontraram o Homem da Capa Preta juravam que ele perseguia quem vagava nas ruas de madrugada.

Esse Homem da Capa Preta, afinal, tomou tanta forma e força que passou a ser usado também como argumento de obediências às mães. Ao primeiro sinal de rebeldia dos filhos, elas logo avisavam: ‘Olha o Homem da Capa Preta! Ele pega você lá fora!’. Conclusão: o Homem do Saco Preto, de outras regiões, passou a ser em São Caetano o Homem da Capa Preta.

Mas não se enganem! Ainda segundo depoimentos, essa figura nada tinha de sobrenatural, muito pelo contrário. O Homem da Capa Preta era o juiz de paz João Rela, que adorava mostrar como era respeitado, vestindo uma capa preta que lhe caía abaixo dos joelhos.

O relato mais contundente dessa figura aparece quando Elvira e Olívia Buso saíram para fazer compras no açougue dos Lorenzini, na Rua Rio Branco, quando já escurecia. Atemorizadas pela escuridão da época, elas já saíram sugestionadas pelo temor da perseguição do Homem da Capa Preta. Ora, foi dito e feito! Pois, quando já estavam retornando, deram-se conta de que estavam sendo seguidas por um vulto. Então puseram-se  a correram, muito assustadas.

José de Souza Martins faz uma análise interessante sobre esse personagem curioso que surge exatamente na época de repressão policial junto aos operários comunistas. Ademir Médici, no livro Migração e Urbanização: a presença de São Caetano na região do ABC, dedica um pequeno espaço ao personagem. Ele conta que João Rela levou para o túmulo a fama de ser o Homem da Capa Preta. Todos sabiam que ele era o personagem enigmático. No entanto, nunca um inquérito foi aberto e nem uma prova mais concreta foi apresentada. Mas ficou a versão, assumida por ele próprio, com muito humor, entendida por amigos e familiares, colocada, vez ou outra, pela imprensa semanal.

O Homem da Capa Preta simbolizava não só uma lenda, mas o rigor disciplinar dos costumes da época, quando raras mulheres e crianças se permitiam sair às ruas tarde da noite. Portanto, não é à toa que eram as donzelas as mais assustadas com esta figura.

Quem foi ele? - João Rela nasceu em Itatiba, no interior de São Paulo, em 16 de setembro de 1889, filho de Giácomo e Antonieta Rela. Veio para o ABC na década de 1910. Foi chefe da estação ferroviária em Campo Grande e, em 1917, mudou-se para São Caetano, como chefe da estação local, na ferrovia São Paulo Railway. Além de padaria, ele teve também seu escritório de despachante. Foi vereador e juiz de paz, ale, de escrever poemas e contos. Faleceu no dia 3 de junho de 1970, aos 81 anos.


Referências bibliográficas:

CASCUDO, Luis Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. São Paulo: ed. Global, 2002.
________. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: ed. Global, 2002.
________. Locuções tradicionais no Brasil. São Paulo: Global, 2002.
MÉDICI, Ademir: Migração e Urbanização: Presença de São Caetano do Sul na região do ABC, Editora Hucitec, São Caetano do Sul, 1993.




[1] Nasceu no Canadá, em 1922, é sociólogo e antropólogo. Atualmente é professor de sociologia e faz pesquisas para a Universidade da Califórnia, em Berkeley. 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A Capela dos Cavana

Nesta quarta-feira (10/9), divulgamos mais um texto, escrito pela historiadora e pesquisadora da Fundação Pró-Memória Priscila Gorzoni. Hoje vocês conhecerão um local que existe em São Caetano do Sul desde o século 19, mas que muitos desconhecem a história que o envolve. Com vocês, a Capela dos Cavana!!!

Antes de desejar-lhes boa leitura, gostaríamos de fazer um convite a todos aqueles que também têm histórias interessantes para contar: envie seu texto para o email jornalismo@fpm.org.br. Estamos ansiosos para lê-lo e compartilhá-lo com outros leitores!


A Capela dos Cavana

Priscila Gorzoni*

Em todos os cantos e recantos do mundo existem lugares inusitados. Locais que destoam do tempo ou que parecem esquecidos de uma época. Em São Paulo, encontramos vários destes pontos, como o Edifício Joelma, a Casa das Rosas, o Castelinho da Rua Apa, a Capela dos Aflitos, o Edifício Martinelli, o Teatro Municipal, a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, entre outros. Cada uma destas construções guarda a arquitetura e história de uma época.

As metrópoles escondem esses locais, que muitas vezes passam despercebidos em nossa vida acelerada. Eles podem ser chamados de lugares de memória[i], que são, antes de tudo, restos. Eles nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, manter aniversários, organizar celebrações, entre outros acontecimentos. Também podemos chamar esses locais de ilhas de passado conservadas[ii].

Conhecer um pouco destes locais é entrar nos lugares de memória ou nas ilhas de passado conservadas. É uma experiência fundamental para compreender a história e a memória da cidade e dos moradores que ali viveram e que por ali passaram.

Criar roteiros turísticos nesses pontos tem sido uma tendência atual em várias cidades brasileiras. Na capital paulista, a empresa Griffit criou um roteiro de quatro horas que sai do Largo do Arouche, passa pelo Castelinho da Rua Apa e termina no Edifício Joelma. O objetivo do passeio é contar um pouco da história da cidade por meio de seus prédios e lendas. Esse trabalho se iniciou no ano 2000. Há um ano, a mesma empresa também lançou o roteiro São Paulo Além dos Túmulos.

Mas não é só em São Paulo que encontramos esse tipo de turismo. Há também o exemplo de Recife, que desenvolveu o roteiro turístico Recife Assombrado, que passa por casarões, museus e teatros da cidade. A ideia é falar um pouco de cada um destes locais e despertar o interesse e a curiosidade dos moradores, turistas e pesquisadores em geral.

Em São Caetano, temos diversos exemplos destes pontos curiosos. Um deles é a Capela dos Cavana, localizada na Rua Luís Cavana, s/n°. Essa pequena capela branca, escondida em uma das travessas da Avenida Senador Roberto Simonsen, foi construída em homenagem a Santo Antônio, por Ângelo Cavana, e preservada pelas novas gerações da família.

Várias missas foram celebradas nessa capela a partir de junho de 1893. A história da família Cavana em São Caetano é bem antiga e, assim como outros moradores da cidade, seus integrantes conservavam a tradição religiosa dos antepassados, os imigrantes italianos.

Nos primeiros tempos de São Caetano, existia apenas a Igreja Matriz Velha, construída em 1883, no Bairro da Fundação. Mas os imigrantes italianos eram muito religiosos e tinham o costume de construir capelas nos terrenos de suas casas. Assim a família Cavana, que tinha uma grande área no Bairro Centro, sob o comando de dona Joana Cavana, matriarca da família, decidiu erguer a Capela dos Cavana.

Construída no século passado, se ainda existisse, ficaria a 100 metros de onde era o Cine Vitória, na Rua Baraldi. Na época, a capela era grande e espaçosa. Era ali que Adolphina Geccato e a jovem Santa Cavana, filha de Joana, ministravam aulas de catecismo, preparando meninas e meninos para a primeira comunhão. Todos os anos, em 13 de junho, dia de Santo Antônio, um padre deslocava-se da Matriz Velha para rezar uma missa na capela, que era assistida por centenas de fiéis. Contudo, após algum tempo, a capela foi demolida e uma nova construção, menor, sobrevive até hoje na Rua Luís Cavana.

Vale lembrar que naquela época as casas eram bem diferentes das atuais. Eram chamadas de cortiços e reuniam até 15 famílias em um mesmo terreno. O cortiço dos Cavana era referência e tinha a forma arredondada. Havia, como nos demais, uma solidariedade entre as famílias. No pátio eram realizadas festas juninas e outras celebrações.

Curiosidade - 1

A denominação de Vila Santo Antônio, que, posteriormente se generalizou em direção a outras colônias, nasceu da capela que os Cavana construíram. A expressão foi oficializada quando houve a abertura do loteamento nas terras dos Cavana, mas só viria a ser consagrada no final dos anos 1930.

Curiosidade - 2

Em 2003, a Fundação Pró-Memória sinalizou a Capela dos Cavana como um local de interesse histórico para a população como parte do projeto 2ª Caminhada da Memória de São Caetano do Sul, que integrou um total de três caminhadas históricas realizadas na cidade. Outros locais sinalizados nesta edição foram: Árvore da Amizade, Indústria de Porcelanas Teixeira, Edifício Vitória, Loja Maçônica Fraternidade São Caetano, Grêmio ideal - Rádio cacique, Edifício Fortaleza, Sociedade Religiosa Israelita, Capela Santo Antônio, Grupo Escola Senador Roberto Simonsen e a primeira sede da prefeitura de São Caetano.

Quem eram os Cavana?

A família de Pasquale Cavana chegou a São Caetano do Sul com a segunda leva dos imigrantes italianos, no início de 1878. Na mesma leva estava a família de Felippo Roveri, que se estabeleceu como colônia, ao lado dos Cavana.

Você sabia que...

O Bairro Santo Antônio foi formado a partir da instalação de olarias próximas à várzea do Rio dos Meninos e de um setor residencial na parte alta do bairro. A antiga Rua Santo Antônio, que atualmente se chama Avenida Senador Roberto Simonsen, recebeu esse nome em razão da Capela Santo Antônio. Até os anos 1940, no Bairro Santo Antônio, não havia igrejas, clubes e outros serviços. Em 1954, no aniversário da cidade, o bairro ganhou o Grupo Escolar Bartolomeu Bueno da Silva e o Jardim Primeiro de Maio. Em 1974, a Avenida Goiás mereceu grande ampliação.

Referências bibliográficas:

MÉDICI, Ademir: Migração e Urbanização: Presença de São Caetano do Sul na região do ABC, Editora Hucitec, São Caetano do Sul, 1993.

Era uma vez (crônica de uma época), Jayme da Costa Patrão, Revista Raízes número 4.

*É jornalista e pesquisadora, formada pela Universidade Metodista de São Paulo, em ciências sociais pela Universidade de São Paulo e em direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem pós-graduação em fundamentos e artes pelo Instituto de Artes da Unesp de São Paulo e atualmente faz mestrado em história, com projeto de antropologia histórica pela PUC-SP. Como jornalista, escreve para as revistas National Geographic Brasil, da Editora Abril, História em Curso, da Editora Minuano, e para a Raízes, da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul. 





[i] Termo definido por Pierre Nora no texto Entre memória e história: a problemática dos lugares.
[ii] Termo citado por Maurice Halbwachs em A Memória Coletiva.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

As aventuras de Negão

Começamos nesta terça-feira a divulgar uma série de crônicas sobre a cidade de São Caetano do Sul, escritas pela pesquisadora e historiadora da Fundação Pró-Memória Priscila Gorzoni. Publicaremos uma crônica por semana.

Por meio de temas diversos, personagens até então anônimos e locais desconhecidos vão sendo desvendados pelos textos de Priscila, fazendo com que nós, leitores, descubramos outras facetas da cidade.

Antes de desejar-lhes boa leitura, gostaríamos de fazer um convite a todos aqueles que também têm histórias interessantes para contar: nos envie o texto para o email jornalismo@fpm.org.br. Estamos ansiosos!

As aventuras de Negão


Priscila Gorzoni*

“A grandeza de uma nação pode ser julgada pela forma com que seus animais são tratados”
Mahatma Ghandi

Mudei o meu trajeto diário até o trabalho só para ver o Negão, uma mistura de pequinês e sem raça definida. Eu estava preocupada com ele, imaginava que podia ser mais um cachorro de rua. Por sorte, descobri que não era.

A primeira vez que o vi, ele sacolejava o pequeno corpo peludo pela Rua Oswaldo Cruz, entre um carro e outro. Fiquei preocupada com sua integridade física, mas Negão já estava longe, não dava tempo de alcançá-lo para poder assegurar-me de que chegaria bem ao seu destino.

Negão, como todos os cachorros, é de uma inteligência fora do comum. Inteligência que ainda tira o sono de vários pesquisadores especializados no assunto. Eu nunca duvidei da inteligência dos animais.

Já faz mais de sete meses que o acompanho, e foi em uma destas minhas observações que descobri que Negão tem morada e dono. Quem se ocupa dele são os funcionários de um estacionamento localizado na Rua Amazonas. Ele é bem cuidado, gordinho e, pelo seu andar, já tem certa idade.

Uma noite, voltando de uma palestra, o vi perambulando pelos arredores de um jardim. Ele ia longe, andar lento, balançado, feliz. Caía uma chuvinha fina e fria, mas Negão parecia não se importar com o tempo. Quando percebi, ele já havia virado a esquina, e provavelmente voltado para a sua morada.

Preocupada, perguntei para um guarda sobre o cachorrinho. Ele me informou que Negão pertencia ao dono do estacionamento e que todos os moradores ajudavam a cuidar dele. Fiquei mais aliviada. Alguns dias depois, fiz contato com a Associação Protetora dos Animais de São Caetano do Sul, e eles me informaram que Negão fazia visitas frequentes ao veterinário. Ele me parecia bem, apesar dos pelos emaranhados.

Nunca vi o Negão bravo. Só uma vez, quando ele começou a latir para um homem embriagado que passava em sua calçada. Neste dia, ele mostrou os pequenos dentinhos e avançou sobre o invasor.

Em outra manhã, ele voltava de seu passeio matinal, em passos lentos, quando parou exatamente ao meu lado para atravessar a Rua Amazonas. Eu olhei para ele, decidida a atravessá-lo. Ele me olhou de volta, parecia me conhecer, e então eu o chamei: ‘-Vem, vem!’.

Ele me olhou um pouco desconfiado, algo que considerei importante para os animais, já que, infelizmente, os seres humanos não são tão confiáveis.

Hoje novamente mudei o meu trajeto, mas não vi o Negão. Imaginei que estaria fazendo seu passeio matinal...

*É jornalista e pesquisadora, formada pela Universidade Metodista de São Paulo, em ciências sociais pela Universidade de São Paulo e em direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem pós-graduação em fundamentos e artes pelo Instituto de Artes da Unesp de São Paulo e atualmente faz mestrado em história, com projeto de antropologia histórica pela PUC-SP. Como jornalista, escreve para as revistas National Geographic Brasil, da Editora Abril, História em Curso, da Editora Minuano, e para a

Raízes, da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul. 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Barroco e Barraco

Desde 14 de janeiro, a Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul promove todas terças, quintas e sábados o Ateliê Experimental de Técnicas de Artes Gráficas com o mestre impressor Roberto Gyarfi, na Casa de Vidro. 

As inscrições rapidamente se encerraram, pois todos queriam ter a chance e produzir e conversar com o grande mestre. Durante sua participação nas oficinas, o artista plástico João Alberto Tessarini tem uma outra percepção do evento que se desenrola ao seu redor e resolve escrever o texto nonsense sobre esta experiência.

Num segundo momento, do Barroco ele chega ao Barraco, o qual vocês conferem logo abaixo. Esperamos que vocês apreciem a leitura e se inspirem para escreverem outros textos e nos enviarem para o email jornalismo@fpm.org.br!

BARROCO


Lá atrás no tempo, lápis só tive toco. Depois vieram aqueles que carregam a cor pela metade em caixinha de seis. Com prego eu feria a umidade da parede na tentativa de libertar os encantados que viviam atrás das manchas. Com prego entalhava a lateral do guarda-roupa, não em busca de formas e sim do inebriante perfume da imbuia. Nunca perguntei por que, só sentia que precisava daquele canto do quarto. Bunda no chão de ladrilhos hidráulicos, pernas cruzadas e pés descalços, camisa quase nunca, o canto quase sempre, o prego um sexto dedo.

Mas, não era só esse noventa graus que me atraía: o redondo e a penumbra das passagens gigantes do córrego endireitado pelos adultos; o oco dos troncos deitados das árvores que já não queriam misturar as nuvens em dia de vento, assim como pincéis gigantes; no muro os buraquinhos-ninho e os ovinhos de lagartixa me faziam retornar, dia após dia, na esperança de testemunhar o nascimento, nunca deu certo, o destino das tantas vezes sempre foi uma casquinha quebrada e vazia onde eu depositava mais interrogações. Isso não mudava nada, eu voltava e voltava.

Assim, ângulos retos, redondos, ocos, tons sobre tons, riscos de luz que atravessavam as copas das árvores e ficavam tentando furar o chão como a criança que enfia a cabeça no colo da mãe, talvez fruto de uma espécie de nostalgia de retorno intra-uterino. O papel manilha e o seu jeito descuidado foi a combinação perfeita para os meus riscos sem rumo e prumo. Alcançar a outra margem do córrego montado e escorregando, tronco e pélvis em movimento constante sobre a bananeira, pintando de nódoa o cavalo do calção foi uma experiência que trouxe a certeza de que é possível atravessar abismos.

Acabei de escrever o que você leu. Tive um dia de muito trabalho no ateliê e quis compartilhar as lembranças que me animaram. Estou conversando com uma pedra, ela é minha confidente, logo uma nova gravura, uma litogravura. Pássaros de brinquedo, insetos e um ovo iniciam transbordar do coração calcáreo. A composição final será transferida com a cumplicidade do mestre impressor sobre um papel composto por fibras de linho. Eu e a pedra, sem subterfúgios, o gesto está lá misturado ao acaso da matéria gordurosa depositada com todo o respeito sobre a superfície polida, um embate que se avizinha e envolve poderoso. Há que se ter coragem, é sempre a verdade que grava. A pedra não perdoa porque não julga, mas não esquece. Esse encontro se repetirá? Não sei, mas anseio por ele.

Já pensei que nunca tive nada em abundância, hoje sei que tive e tenho a poesia de menino.

BARRACO

Cavaletes e cadeiras brincam embaixo da mesa. Em cima, as pedras testemunham conversa de gente – elas, as pedras, claro, manterão segredo absoluto – somente as imagens gravadas serão compartilhadas. Mais uma vez serei um dos últimos a viver a intensa expectativa da transferência do gravado para o papel. Dessa vez está existindo um tempo de espera maior, os bichos que estou desenhando insistem em escapar para os jardins da praça. Vão e voltam. Eu espero.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Poema na travessia

Não bastasse a cantora Rose Calixto ter brindado o público com uma bela interpretação da música Travessia, de Milton Nascimento, na abertura da exposição Roberto Gyarfi: Mestre Impressor, promovida pela Fundação Pró-Memória na Pinacoteca Municipal, agora o administrador, poeta e escritor Sérgio Augusto Alonso Ballaminut nos emociona com o poema abaixo, escrito após ele ter participado do evento de abertura da mostra.

NO TRILHAR DA TRAVESSIA


No rever da travessia
Desde os tempos de criança
Lágrima ia
Lágrima caía
Lágrima mansa.

No rever da travessia
Que retinha na lembrança
Palavra ia
Palavra envolvia
Palavra de esperança.

No trilhar da travessia
Nesses tempos de bonança
Sorriso ia
Sorriso agradecia
Sorriso de criança.

De criança
Que ressurge mansa
Mas alcança:
Alma em lança.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

As mãos que abençoam

Neste post, você confere a história de um personagem curioso da história de São Caetano, dona Dolores, benzedeira espanhola que se instalou na cidade com sua família há muitos anos e desde então vive aqui ajudando quem lhe procura com suas rezas.

As mãos que abençoam

- Pronto você já está bem!
Finalizou dona Dolores, 96 anos, benzedeira espanhola famosa nos arredores do bairro Santo Antonio, em São Caetano do Sul. Depois de rezar, pediu para que eu me sentasse em sua frente em um pequeno banquinho. Ela me olhou detalhadamente e disse:
- Você precisa de reza, pega quebrante fácil...
Não titubeei. Há muito tinha ouvido falar de dona Dolores, espanhola sacudida e uma das mais antigas moradoras da cidade. Eu a imaginava mais gasta pelo tempo, mas, ao chegar, me deparei com uma bela senhora de idade, com olhinhos brilhantes em tom de pequenas gotas de azul puro, tecendo em suas mãos o terço gasto de reza. Dona Dolores é daquelas que não deixa de rezar um dia sequer. Um ministro da igreja vem uma vez por semana em sua casa para lhe dar a comunhão. Quando não está benzendo, está rezando. E assim prossegue em um som quase apagado, até que se esquece de minha presença na sala de estar.
- Ave Maria, cheia de graça, senhor...
Do outro lado da sala está sua filha Terezinha, rosto de educadora e atenção redobrada em dona Dolores. Ela é a filha que ficou ao lado da mãe, quase centenária, após os outros irmãos se espalharem pelo estado de São Paulo. Resolveu cuidar da pequena velhinha e é feliz assim.
O silêncio do local é apenas interrompido pelo barulho dos carros lá fora. Depois de terminar a ladainha, dona Dolores resolve falar, contar sua história, de quando os imigrantes espanhóis aqui chegaram de navios. Ela era então uma menina animada, cercada dos mimos do pai. Antes de iniciar a narrativa, que prometia ser longa, dona Dolores, com a fala mansa e lúcida, pede à filha:
- Feche um pouco a janela, assim o sol não entra tão forte.
No meio de suas palavras, percebo o leve sotaque espanhol. Algo que, apesar da passagem do tempo, ficou na memória.
- Nasci na Espanha, mas vim para o Brasil com dez anos e aqui morei em várias cidades do interior paulista.
Para ajudar na narrativa da mãe, Terezinha completa a frase já muitas vezes ouvida entre a família. A velhinha parece pensar entre uma palavra e outra, enquanto a filha escolhe as frases. Animada, Terezinha exclama:
- Finalmente vão escrever sobre a vida de mamãe, já não era tarde!
Depois retoma a postura e continua emendando as frases de dona Dolores, que em tons lentos continua a narrativa:
- Meu avô não encontrava trabalho lá (na Espanha), então disse que tentaria a vida aqui. Viemos juntos, porque éramos muito unidos.
A partir daí, a vida dessa espanhola mudaria radicalmente. Acostumada com a vida na roça e com a comida espanhola, estranhou ‘tudo’ ao chegar.
Por alguns momentos da entrevista, ela para a vista no ar e parece pescar algumas lembranças preciosas esquecidas pelo tempo. Após alguns minutos, recorda algo em um sobressalto e desanda a falar novamente:
- Foi uma vida complicada. Quando chegamos da Espanha, a gente não entendia ninguém e não gostávamos da comida brasileira. Minha avó não queria comer arroz, achava muito estranho tantos grãos juntos e sem gosto. Mas, com o tempo, teve que se acostumar.
Esperei dona Dolores respirar entre uma palavra e outra, mas ainda ansiosa por saber sobre seus benzimentos, não parei diante do caminhão barulhento que passava pela rua para elaborar a pergunta. Mal terminei e ela já foi contando a sua trajetória de benzedeira, que foi interrompida pela filha:
- Entrem, minha mãe já vai atender.
Mãe e menino entram na sala e me olham com um olhar atento, esperando uma solução para o problema de saúde. Rafael, ainda no colo da mãe, parece assustado, mas é conduzido a uma das poltroninhas da sala. Ele senta-se e fica olhando para dona Dolores, que mexe no terço. A mãe espera a benzedeira acabar a reza para pedir que ela ore por seu menino.
- Ele não para de chorar e teve febre a noite toda.
Dona Dolores olha a criança, tira o terço do colo e começa a rezar em suas costas. Faz o sinal da cruz diversas vezes e finalmente pousa os dedos sobre sua testa. Terminada a reza, explica:
- É preciso vir mais três vezes, senão o benzimento não dá certo.
Ao terminar, começa a bocejar, mas logo para.
- Graças a Deus, nada de ruim fica em mim.
Mãe e filho se levantam e é clara a mudança de Rafael. Seu semblante exibe uma expressão mais tranquila. A mãe se despede de dona Dolores e promete voltar na próxima semana para dar continuidade ao tratamento. Antes de saírem, a benzedeira explica:
- Podem vir qualquer dia, menos nas sextas e nos dias santos.
Nas sextas-feiras dona Dolores ensina quem pretende seguir o seu legado, afinal a tradição precisa continuar...

Priscila Gorzoni é jornalista, pesquisadora e autora de vários livros, entre eles Abre as portas para os Santos Reis, da Fundação Pró-Memória, e Os benzedores que benzem com as mãos, da editora UCG

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Simultâneas

Neusa Schilaro Scaléa é a curadora de ambas as exposições que estão em cartaz neste momento na Pinacoteca Municipal de São Caetano. Abaixo, ela nos descreve seu olhar sobre cada um dos artistas e de suas respectivas produções.

Para você que já veio ou para você que irá visitar as mostras, uma boa leitura e uma boa reflexão!


Temos o privilégio de abrigar na Pinacoteca Municipal de São Caetano do Sul duas mostras que nos dão a oportunidade de fazer um contraponto bastante instigante. Na sala especial temos Diálogos com obras de Flávio Abuhab e no salão maior, quase uma retrospectiva do artista Inos Corradin, com a exposição Universo Lúdico de Inos Corradin.

Abuhab, conciso, cerebral, claro e conceitual. Suas inquietações e propostas são realizadas depois de pesquisas em seu próprio repertório de estudos e formação. Ideias de seu laboratório de imagens e registros próprios.

Este artista trabalha em sintonia com o seu entorno e com seu tempo; em sua obra não há figuração no sentido de representações conhecidas, se estão ali não são mais o que representam. Utiliza fotografias não como registro e sim como suporte, que submetem-se a intangibilidade da ideia. Primeiro, a ideação, depois, o material, a forma, a cor, como resultado e não como ponto de partida.

Simultaneamente e sob o mesmo teto, mas na sala maior, um artista que, tanto pelo seu percurso como pelo seu repertório, desenvolveu um trabalho bem diverso de Abuhab.

Inos bebeu em outras fontes e buscou outros caminhos. A figuração nunca o abandonou, quando quase escorregou para a abstração, o chiaroscuro, a velatura e a relação figura-fundo permaneceram. Aprimorou sua técnica em função das figuras e seu contato com as linguagens artísticas aconteceu sem intermediações e sem teorias. Inos se aprisionou na profissão de artista, tem os pés no chão. Flávio é artista sendo professor, estudando e ensinando arte, flutua no tempo presente.

Flávio, um artista ligado à universidade, estudioso, um acadêmico, não no sentido de quem produz, mas de quem ensina arte, faz exatamente desse elenco de conhecimentos, pesquisas e elaborações  a sua obra, por vezes clara e exata, por vezes hermética e fechada. Inos é o artista que saiu em busca da valorização do mercado, mantendo propostas e modelando, em épocas diversas, sua experiência estética única.

Se Flávio pode provocar certo desconforto intelectual e emotivo devido ao inusitado quando desloca o objeto sem deixar ao observador nenhuma referência, Inos também vai provocar estranhamento com a deformação das figuras, do fantástico e do maneirismo recorrente.

Flávio Abuhab,  um artista para o qual podemos usar a frase de Nicolas Bourriaud: “Ao invés desse ajoelhar diante das obras do passado, usá-las”. Ou ainda como nos diz Anne Moeglin-Delacroix: “Para os artistas conceituais, são as informações, textos, fotografias, fotocópias, esquemas, que documentam não tanto um objeto ou ação in absentia, mas a ideia, por natureza invisível”.