quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

122 ANOS DE FAZ DE CONTA E A MAGIA DA ILUSÃO

A plateia estava lotada naquela noite no Grand Café de Paris e todos se assustaram com o que viram, embora os presentes soubessem que a cena não era real, que não se tratava de um trem de verdade, e nisso consistia a grande novidade: a ilusão de que  o que se passava na tela era verdadeiro. Estava criado o mundo do faz de conta, no qual, durante um curto espaço de tempo, tudo era possível. Desde então, é quase impossível descrever a quantidade de sensações que o cinema despertou e ainda hoje desperta no público: alegria, dor, compaixão e, mesmo tendo por objetivo o entretenimento, o cinema muitas vezes levou o homem à reflexão sobre si mesmo ou sobre a humanidade.
         
Isso aconteceu no dia 28 de dezembro de 1895, quando foi apresentada pela primeira vez a mais recente invenção dos irmãos Louis e Auguste Lumière: o cinematógrafo. O objeto que foi apresentado mostrava a imagem de um trem que, aos poucos, chegava à estação e tomava conta da tela inteira. Hoje, essa cena clássica faz parte de todos os documentários sobre a história do cinema.

O cinema surgiu na Europa, mas foi nos Estados Unidos que a história desse meio de projeção se desenvolveu. Vinte anos após a primeira exibição do cinematógrafo, Hollywood já produzia uma de suas grandes obras-primas: “O Nascimento de uma Nação”, do diretor D.W. Griffith, que filmaria, logo em seguida, outro clássico do cinema, “Intolerância”. Em 1927, outra novidade surgia nas telas: o som. O marco ocorreu com o filme “O Cantor de Jazz”, que tinha Al Jolson no elenco. Estreou na noite de 6 de outubro daquele ano e recebeu - junto ao “O Circo”, de Charlie Chaplin -, o Oscar na categoria de filmes especiais.

Assim, tinha início a era de ouro de Hollywood, com suas divas e diretores geniais, como Frank Capra, que iria realizar uma série de filmes bem intencionados e otimistas, feitos sob medida para combater a depressão econômica que os Estados Unidos viviam, cuja mensagem não envelhece jamais e até hoje comovem os fãs da sétima arte no mundo todo.

Ao falar sobre a época de ouro do cinema, alguns marcos não podem ser esquecidos. O ano de 1939 é um deles, considerado um dos mais brilhantes de sua história. Foram filmados, naquele ano, a superprodução “...E o Vento Levou”, com Vivian Leigh; “No Tempo das Diligências”, com John Wayne e direção de John Ford; “Ninotchka”, com Greta Garbo dirigida por Ernst Lubitsch, o mestre da comédia sofisticada; “O Morro dos Ventos Uivantes”, com Laurence Olivier e direção de William Wyler, entre tantos outros. Na França, Jean Renoir filmava seu clássico “Regra do Jogo”.

Na década de 1940, apesar da Segunda Guerra Mundial, Hollywood continuava com a sua produção de clássicos. Podemos destacar “As Vinhas da Ira”, de John Ford, com Henry Fonda; “Cidadão Kane”, com Orson Welles, considerado por muitos o melhor filme de todos os tempos, e “Casablanca”, o predileto de quase todo cinéfilo, com seu elenco impecável e a inesquecível música-tema: “As Time Goes By”.


A GUERRA - Com o início da guerra, a Europa foi atingida no cinema de forma brutal, modificando radicalmente sua estética e linguagem. Já não era possível fabricar sonhos diante da tragédia que o homem provocava a si mesmo. Era preciso analisar de maneira crítica a sociedade que causara tal ruína. O cinema assumiu, assim, outro papel, o de mostrar e discutir a realidade do pós-guerra. Surge na Itália, em 1945, o chamado movimento neorrealista, com o filme “Roma Cidade Aberta”, de Roberto Rossellini.

Na década de 1950, a onda de realismo no cinema transferiu seu centro da Itália para a França, e a temática deixou de ser rural e social para ser urbana e existencial. A sétima arte passou a pensar a sensação de vazio que nasceu no espírito humano ao constatar as atrocidades cometidas pelo homem durante a guerra.

Essa década foi muito produtiva. Foram feitos filmes referentes à mitologia grega, como "Hércules", "Maciste", "Os Filhos do Trovão", protagonizados por Giuliano Gemma, que mais tarde se destacaria com o filme “O Dólar Furado”. Também foram executados filmes históricos, como “Manto Sagrado” e “Helena de Tróia”, com Rossana Podestà e Jacques Sernas. Nessa produção, uma artista morena em início de carreira fez ponta como escrava da Helena de Tróia. Mais tarde, se tornaria uma estrela de ponta, seu nome era Brigitte Bardot.

Nessa mesma década surgiram os estúdios de Walt Disney, que se especializou em filmes para crianças, mas também muito apreciados pelos adultos. Montou o Parque da Disney, na Califórnia (Estados Unidos), e, bem mais tarde, construiu uma réplica em Orlando, na Flórida, um sucesso até hoje. Foram montados também outros parques similares, como em Paris (França), e um na China.

A partir de 1959, com o filme “Acossado”, houve uma ruptura da linguagem cinematográfica, que nos influencia até os dias atuais. Jean-Luc Godard realizou essa película a partir da história de François Truffaut. Era o nascimento da “nouvelle vague”. Já no Brasil, surgia o Cinema Novo, com o filme de Nelson Pereira dos Santos, “Rio, 40 Graus”, em 1955. Nessa mesma época, também é lançado “São Paulo, Sociedade Anônima", ambos sucesso de bilheteria.

Na década de 1970, ocorria outro momento de intensa criatividade, desta vez nos Estados Unidos. Surgia uma figura importantíssima: Steven Spielberg, que rodou, entre tantas películas, “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, “E.T. – O Extraterrestre”, "A Lista de Schindler, “Os Caçadores da Arca Perdida”, “Tubarão”, “O Resgate do Soldado Ryan”, “Indiana Jones e a Última Cruzada”, “Munique”, “Jurassic Park – Parque dos Dinossauros”, “Encurralado”, “Império do Sol”, "Prenda-me se for Capaz”, “A Cor Púrpura”, “Indiana Jones e o Templo da Perdição”, "Minority Report – A Nova Lei” e “Lincoln”.  Surge também o produtor George Lucas, com “Guerra nas Estrelas”, “Star Wars: Episódio IV”, “Loucuras de Verão”, recuperando o espírito de emoção e aventura nas telas e arrecadando milhões de dólares nas bilheterias. Também aparece uma nova linguagem no cinema e os recursos da tecnologia aplicados à sétima arte, provocando alegria, suspense e terror, de forma muito mais intensa do que nas décadas anteriores.

Daí para frente, o cinema só evoluiu, haja vista, as premiações anuais do Oscar, que podem ser pesquisadas pela Internet desde o seu início, em 1927. Até a década de 1990, o filme que mais havia ganhado Oscar era “Ben-Hur”, com 11 estatuetas. Só então veio o filme “Titanic”, que obteve igual número. Mais recentemente, "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei", que faz parte da trilogia de "O Senhor dos Anéis", de J. R. R. Tolkien, também conquistou 11 estatuetas douradas.

A verdade é que, ao se tornar pública, muitas vezes a obra de um artista toma um rumo totalmente diferente do esperado. Isso vale, por exemplo, para o invento dos irmãos Lumière, o cinematógrafo, projetado inicialmente com objetivo científico.

Daquela época até o filme “Jurassic Park”, quase um século se passou e o cinema várias vezes foi modificado. Mas os sonhos, a ação, o mundo do faz de conta e a magia da ilusão continuaram intactos.   

Fonte: Agência Estado de 1995.

Domingo Glenir Santarnecchi
É jornalista, advogado, escritor, autor do livro São Caetano Di Thiene – o Santo que deu nome à cidade e membro da Academia de Letras da Grande São Paulo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Um pedido de ajuda

O texto abaixo foi escrito por João Alberto Tessarini, atelierista da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul, que, numa tarde, estava recepcionando o público que visitava a exposição Um lugar, uma história - A Cerâmica São Caetano, promovida pela Pró-Memória, até o dia 30 de setembro, no Espaço do Forno, próximo ao ParkShopping São Caetano.

Se você sabe quem é a pessoa da foto, ou tem alguma pista de quem poderia ser, ou mesmo acha que tudo não passou de um sonho, da imaginação de Tessarini, deixe seu palpite nos comentários!

Um pedido de ajuda


Bom dia, gente! Um pedido de ajuda: você sabe quem é e onde mora o homem da foto? Qualquer informação será bem-vinda. Nosso encontro foi rápido, dentro do último forno intermitente usado para fabricação de cerâmica e que hoje abriga uma exposição com fotos, textos e depoimentos de ex-funcionários sobre uma história marcante para milhares de famílias.

Tudo indica que ele conhecia muito bem o local onde estávamos. A maneira carinhosa com que tocava a pátina natural que cobre os tijolos e ferragens era de alguém muito próximo de tudo aquilo. Sua única frase, com voz grave, gutural, foi: “Continua muito especial”. Posso dizer que existia no seu olhar uma nostalgia, talvez de fatos onde ele tenha sido o protagonista.

Foram segundos - enquanto ele olhava o teto abobadado, pintado de preto, fui receber o casal que chegava para uma visita e indiquei o início da exposição, quando me virei na direção do visitante, com a sua touca rota, ele havia sumido. Fui até a porta e nada, ninguém na rampa ou na calçada que fica em um patamar mais alto. Conversei com o casal, completamos a visita, eles saíram.

Peguei papel e lápis e comecei a desenhar a criatura que virou vento. Eu sentia uma necessidade muito grande, sem explicação, de registrar a fisionomia daquela figura. Pena, poderia ter feito uma foto, não fiz. Seu rosto estava muito forte na minha mente, mas eu não estava satisfeito com o desenho, eu precisa de mais. Lembrei que talvez tivesse massa de modelar no automóvel estacionado a uns 20 ou 30 metros do forno. Corri até lá e olhei atrás do banco do motorista: maravilha, o pote com a massa salvadora estava ali a minha disposição. Peguei aquilo com o cuidado merecido de tesouro que é, voltei e modelei rapidamente, durante uns 10 ou 15 minutos, fazendo uso da tampa da caneta como ferramenta para buscar a expressão marcante.

Modelar o rosto de alguém é como tocar o rosto da pessoa em questão, experiência de imersão total – e, naquela situação, tudo dentro do forno com seu jeitão medieval conspirava para o êxito do trabalho, até a meia luz difusa e aconchegante do forno que sempre me abraça redondo. Você conhece esse homem? Sonhei? Faça contato!

O último dos fornos da Cerâmica São Caetano fica no Espaço Cerâmica, ao lado do ParkShopping São Caetano. Visite a exposição Um lugar, uma história – A Cerâmica São Caetano, promovida pela Fundação Pró-Memória São Caetano, aberta de terça a sábado, das 14h às 17h. Sempre terá alguém lá para te receber.
Abraços,
João Alberto Tessarini

sexta-feira, 20 de março de 2015

Andanças pela última morada

Mais uma vez, com muita habilidade, a historiadora e pesquisadora da Fundação Pró-Memória Priscila Gorzoni nos encanta com seus textos sobre aspectos de São Caetano do Sul, seja da vida dos moradores seja da cidade, que nos passam despercebidos diante dos olhos apressados do cotidiano.

Desejamos a todos boa leitura!

Andanças pela última morada

Percorrer os cemitérios das cidades é, sem dúvida, uma das formas de conhecer a alma, pensamento, visão de vida e histórias de uma comunidade. É nos mortos que os vivos refletem o que pensam e como desejam ser vistos. É nos cemitérios das cidades que encontramos alguns personagens marcantes, enigmáticos e históricos. Representantes de um tempo que ficou para trás, mas que ainda deixa ecos no mundo dos vivos.

O nascimento e a morte são as duas mudanças fundamentais que ocorrem com o ser humano. Depois da morte, o corpo é objeto de vários rituais, que acompanham as representações que cada indivíduo tem em vida. Duas atitudes opostas se destacam no rituais fúnebres: o aniquilamento total do corpo ou sua conservação a qualquer preço.

Em todas as culturas, a comunicação entre os dois mundos é mantida por meio dos recursos materiais, como tumbas, efígies, estátuas, retratos, cemitérios, caixões, entre outros. Essas formas de se comunicar também variam de uma comunidade para outra. Por isso, uma das maneiras de entender como os nossos ancestrais concebiam o mundo é descobrir como tratavam seus mortos.

Foi para compreender um pouco mais a mentalidade dos antigos moradores de São Caetano que, em uma manhã comum de inverno, parti para o Cemitério São Caetano, conhecido como Cemitério Santa Paula, o primeiro da cidade.

Quem chega a esse local vê ao longe os túmulos suntuosos, grandiosos e belos. Lá estão enterrados personagens famosos da cidade, como Ângelo Raphael Pellegrino, Hermógenes Walter Braido, Oswaldo Samuel Massei, Anacleto Campanella, João Dal´Mas e o curandeiro Vicente. 

Antes do Cemitério São Caetano, os moradores passavam momentos de angústias para enterrar seus mortos. Nos primeiros tempos, os corpos eram jogados em valas pelas estradas. Depois, passaram a ser enterrados em São Paulo e, posteriormente, em São Bernardo do Campo.

Com esse problema em vista, foi sugerida a construção de um cemitério na cidade e assinada uma lei, em 1911, que abria crédito extraordinário para essa finalidade. A vontade da população foi ouvida e o cemitério se tornou realidade.

O terreno usado para a construção foi doado pela família Garcia, que aceitou fazer a doação já que possuía muitas terras no bairro. Era uma área tipicamente rural, situada ao lado da estrada que seguia de São Caetano para a Estação de São Bernardo (hoje Santo André).

Foi com a construção do Cemitério São Caetano que a paisagem da cidade começou a mudar, de rural ganhou ares mais urbanos. Em torno do cemitério, surgiram várias casas, bares e armazéns.

O ritual da morte dos primeiros moradores de São Caetano era bem diferente do atual. O falecimento de uma pessoa era, em poucas horas, do conhecimento de quase toda a população. E a preparação do defunto era feita pelos próprios familiares.

No local do velório, realizado na casa da família do morto, eram colocadas faixas pretas nas janelas e portas para noticiar o falecimento. O transporte do defunto para o cemitério era organizado: caminhava-se em filas de par, meninos e meninas carregavam ramalhetes de flores que eram oferecidos aos demais. Os caixões eram todos do mesmo formato, retangular, sem detalhes e modestamente forrados. Os dos homens eram de cor preta, com aplicações de galões dourados.

Durante o luto, a sociedade não via com bons olhos a presença dos enlutados em bailes, festas, cinemas ou qualquer divertimento, mesmo em celebrações familiares, por considerar aquela atitude um desrespeito ao falecido.

Referências bibliográficas:

Do velório ao sepultamento, de Henry Veronese (Revista Raízes 13).
História e arte no cemitério da Consolação, de José de Souza Martins.
Nostalgia, de Manoel Cláudio Novaes, Editora Meca.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Bravas mulheres

A fim de homenagear as mulheres de São Caetano do Sul, que muito contribuem e contribuíram para a formação do município, a Fundação Pró-Memória publica este texto da historiadora e pesquisadora Priscila Gorzoni, ao relembrar as primeiras mulheres que ocuparam esse território.

Boa leitura!

Bravas mulheres

“Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem esses olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha essas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha esse coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por essa mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?”
  
(Cecília Meireles, em Flor de Poemas)

Quando chegaram a São Caetano do Sul, as mulheres não contavam com tantas oportunidades como as de hoje. A vida não foi nada fácil para as antigas sul-são-caetanenses, muitas vezes excluídas dos relatos históricos. Mas parte do que a cidade se tornou devemos a elas.
As primeiras mulheres dessa terra eram índias, provavelmente pertencentes a grande família dos Tupi-guaranis, que ocupava, em 1590, toda a costa brasileira, desde o Nordeste até o Sul. São Caetano do Sul ainda não existia e essa região era conhecida como Tijucuçu.
O pouco que sabemos sobre essas índias era que tinham as atribuições bem definidas, como tecer balaios e redes, produzir utensílios domésticos, cuidar dos filhos e plantar mandioca para a alimentação.

AS ITALIANAS - Por volta de 1877, começaram a chegar os primeiros imigrantes italianos, em sua maioria vindos do Vêneto. Foi a partir desse grupo que surgiu o primeiro Núcleo Colonial da então Fazenda São Caetano. Muitas mulheres compunham esse grupo e aqui cozinhavam, costuravam e lavavam as roupas.
Nada foi fácil para elas nesse começo. Não havia conforto, médicos, transporte, tratamento de água e esgoto, e nem mesmo cemitérios. Relatos sobre essas primeiras sul-são-caetanenses demonstram que o sofrimento não era só com a falta de conforto, mas com o clima e os insetos.
Às mulheres cabiam as atividades domésticas, as costura, rezas, lavagens de roupas nos rios da cidade e, mais tarde, com as olarias, um emprego. Eram nessas olarias que elas faziam dupla jornada.
 Entre vários relatos, destaca-se o de Vergilio Ferrari, que descreve a rotina de sua mãe, obrigada a se sentar sobre montes de tijolos, em frente ao barro, para amamentar os filhos.
Nesses anos de 1890, as mulheres que haviam ficado viúvas também não tinham o direito de assumir a família e, por isso, muitas vezes, perdiam a herança do marido. Sozinha, elas voltavam a ser encaradas como menores de idade, que dependiam de outros para ter os seus direitos respeitados.
Algumas conseguiam superar tantas dificuldades. É o caso de Ângela Garbelotto, que continuou tocando a pequena olaria deixada pelo marido. Outra foi Ana Martorelli que, com a morte do marido, trocou alguns terrenos por uma vaca e nela fez fortuna. Nesses primeiro tempos, a mortalidade era grande, registrava-se um falecimento a cada três dias devido à diarreia, reumatismo e outros problemas. Essas mazelas tornavam a presença feminina ainda mais necessárias na sociedade, pois muitas conheciam ervas e remédios caseiros.
Durante muito tempo, o espaço feminino ficou restrito à casa e aos rios que circulavam a região. Algumas personalidades conseguiam fugir à regra desempenhando atividades informais e nos comércios locais, como Marina Giacomini, também conhecida como “A Carbonara”. Ela tinha um sítio, atrás de uma fábrica de formicida, de onde tirava madeira e vendia em São Paulo. Outra que ficou registrada na história foi Assumpta Sestari, dona de um armazém na década de 1910.
No entanto, a maioria das mulheres desempenhava suas funções e trocava informações em espaços privados. Ao homem, cabia o espaço público, onde se fazia política e negócios.

FORA DE CASA - A partir do final do século 19, essa distinção torna-se turbulenta. Essa situação fica patente na significativa participação feminina nas indústrias da época.
Segundo o sociólogo José de Souza Martins, em 1910, não havia mulheres entre os operários da Fábrica de Formicida Paulista. Isso começa a mudar a partir de 1918. A Matarazzo computava 312 empregados e, entre eles, havia 38 mulheres. Elas faziam parte, em sua maioria, das fábricas de tecelagem e indústrias têxteis, tanto que, em 1912, dos 1.775 operários existentes em sete estabelecimentos fabris, 1.340 eram mulheres, de acordo com dados obtidos pelo Departamento Estadual do Trabalho.
Segundo Martins, foi por meio da fábrica que as mulheres de São Caetano romperam o espaço privado e conquistaram o público. Na política, apenas a partir de 1948, com o movimento autonomista da cidade, começam a aparecer os primeiros nomes femininos, como os de Itália Fiorotti e Olga Montanari.

Referências bibliográficas:

Cotidiano e História em São Caetano do Sul: Adriana M. C. Ramos e Mônica de Souza, Editora Hucitec, Prefeitura de São Caetano do Sul.

As Outras Vozes: Memórias femininas em São Caetano do Sul, Editora Hucitec.

Além dos Fragmentos: o feminismo e a construção do socialismo, Hilary Waiwright, Editora brasiliense, SP.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Uma capela perdida no tempo

O primeiro post de 2015 pretende trazer um lugar inusitado e até pouco conhecido dos moradores de São Caetano: a Capela Santo Antonio. Neste texto, escrito pela historiadora e pesquisadora da Fundação Pró-Memória Priscila Gorzoni, saiba onde ela se localiza e conheça a sua história.

Boa leitura!



Uma capela perdida no tempo

Quem caminha tranquilamente pela Avenida Senador Roberto Simonsen, em direção à Avenida Goiás, se surpreende ao cruzar com uma rua chamada Constituição. Bem no meio dela, nos deparamos com uma pequena capela azul, tímida e misteriosa, a Capela Santo Antonio, localizada no bairro de mesmo nome.

Apesar de pequeno e escondido, este é um local interessante. As paredes são de azulejos bem azuis, o que faz um belo contraste com os portões brancos. Apesar da simplicidade, ela se destaca das casas em sua volta. É uma construção que ficou no tempo, na história de São Caetano do Sul. Como uma foto em preto e branco que fala por si só...

A ‘verdadeira’ Capela Santo Antonio foi construída em 1924 por Ricardo Mariani Molinaro, e ficava na antiga Rua Santo Antônio, atual Avenida Senador Roberto Simonsen. Ela foi demolida e reconstruída em 1960, no atual endereço.

Esse é sem dúvida um dos pontos mais interessantes e importantes para se visitar na cidade. Assim como a Santo Antônio, em todo o Grande ABC surgiram várias capelas em devoção a diversos santos, mas ele parece ter sido o privilegiado. Os antigos moradores explicam essa predileção de uma maneira inusitada. Diziam que as famílias assentadas no Núcleo Colonial confundiram, em principio, a imagem de São Caetano, existente na primitiva capela local, com a de Santo Antônio, porque eram muito semelhantes e ambas carregavam o Menino Jesus nos braços.

A Capela Santo Antonio foi construída pela família de João Molinari em retribuição a um milagre. Contam que no verão de 1919 desabou um temporal em São Caetano e a família colocou-se a rezar em torno do oratório que guardava um Santo Antônio trazido de Modena, na Itália, em 1885. Nesse momento, uma faísca afetou o telhado e atingiu o oratório, sem causar danos maiores, deixando a imagem do santo ilesa e, inclusive, mantendo as suas velas acessas.

Assustados com o milagre, a família construiu uma capelinha e sobre a porta de ferro colocou uma placa de mármore com os seguintes dizeres: “Capela Sant Antonio, Ricordo di Mariana Molinari - 1924”. O local continua preservado e até hoje abriga a imagem centenária.

Curiosidade - Os Molinari vieram da Itália para São Paulo e, em 1894, mudaram-se para São Caetano, onde passaram a morar no Bairro Cerâmica. A primeira atividade dos Molinari foi cultivar a terra para construir sua casa de madeira roliça e portas improvisadas de caixões, na Rua Projetada, que depois ganhou o nome de Santo Antônio, em função da Capela Santo Antônio. Os primeiros Molinari eram Giovanni Molinari e sua mulher, Mariana Nery Molinari.

Aqui, eles foram recebidos pelos Cavana, que viviam em uma colônia, então localizada no cruzamento da Avenida Senador Roberto Simonsen com a Rua Baraldi. Os Molinari e os Cavana tornaram-se grandes amigos e seus filhos até se casaram. Nos negócios, se fixaram no Bairro Cerâmica e abriram uma fábrica de colchão chamada Giovanni Molinari & Figli.  

Outra atividade que a família desenvolveu foi o beneficiamento de caulim. O produto era extraído na Vila Nossa Senhora das Mercês. Eles arrendavam as terras, venciam a mata virgem, andavam de carros de boi até chegar à cava. Carroças e carroções retornavam com caulim até a Estação São Caetano, de onde o produto era enviado aos compradores.

Referências bibliográficas:
Antônio, santo dos italianos, dos portugueses... e de todo mundo, Valdenízio Petrolli, Revista Raízes 13.
Era uma vez... (crônica de uma época), Jayme da Costa Patrão, Revista Raízes 4.
Migração e Urbanização: a presença de São Caetano na região do ABC, Ademir Medici.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A árvore da amizade

Você sabia que em São Caetano existe uma Árvore da Amizade? Sabe onde ela se localiza? Então descubra estas e outras informações neste post, escrito por Priscila Gorzoni, historiadora e pesquisadora da Fundação Pró-Memória.

A árvore da amizade

Priscila Gorzoni

Quem desce do ônibus no ponto central da Avenida Goiás, em frente à Praça dos Arcos (que tem o nome oficial de Praça Prefeito Luis Olinto Tortorello), não imagina que bem atrás da banca de flores existe uma árvore muito famosa chamada Árvore da Amizade.

Outro dia, passei próxima dela e, embora escondida e com pó sobre a placa, chama a atenção. A Árvore da Amizade é uma das mais antigas e que melhor simboliza São Caetano do Sul. Ela foi plantada em 1930, durante a visita de Paul Harris, fundador do Rotary Club International, ao município. A árvore é uma das mudas da árvore original da amizade.

Essa história começou quando o engenheiro Armando Arruda Pereira convidou Paul Harris para visitar sua casa, no Bairro da Fundação, em 1905. Ao receber a visita de Harris e sua esposa, Jean, Arruda ficou tão feliz que quis marcar o encontro com o plantio de um cedro em seu quintal como símbolo de sua amizade rotária. Nessa ocasião, Arruda disse: “Dentro de poucos anos, toda esta região terá um grande desenvolvimento e então chegará a hora de plantarmos muitos Rotarys por aqui”.

Plantar árvores por onde passava era um costume de Harris, tanto que antes do citado cedro, ele já havia plantado outras mudas no Brasil. Na mesma visita, havia plantado um ipê amarelo na Praça da República, em São Paulo.

Bem mais tarde, em 1955, durante uma reunião do Inter-Clubes, que contou com a presença de Manuel Gutierrez Duran, a tradicional Árvore da Amizade foi transferida para o Jardim Primeiro de Maio, antigo Paço Municipal, hoje conhecida como Praça Prefeito Luis Olinto Tortorello, onde também foi colocada uma placa de bronze, que tinha os principais dizeres: “Árvore da Amizade (cedro) plantada em 1936, por Paul P. Harris, na residência do companheiro Armando Arruda Pereira e replantada em 6 de fevereiro de 1955 pelo Rotary Club de São Caetano do Sul”.

Mas esta árvore não foi a única a marcar a história de São Caetano. Uma figueira se tornou emblema do Bairro Nova Gerty. Ela sobrevive ao tempo e se mantém imponente entre as ruas Visconde de Inhaúma, Itu e Nelly Pelegrino. O encontro dessas três vias se tornou conhecido como o Largo da Figueira. É difícil precisar o nascimento da figueira, estima-se que tenha ocorrido antes da chegada do farmacêutico Abrahão Leite Brito ao bairro, em setembro de 1948. (1)

E por falar em árvore que tal também citar a que serviu de base para a estátua de São Pedro, exposta em frente à USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), em 1975! Mas este assunto daria um post inteiro, então essa história fica para uma próxima...

Referência bibliográfica:“A árvore da amizade. A presença de Paul Harris em São Caetano do Sul”, de Jayme da Costa Patrão, Revista Raízes 15.
(1)   Migração e Urbanização: a presença de São Caetano na região do ABC, Ademir Medici PP 464.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O misterioso curandeiro Vicente

Você já ouviu falar de Vicente, o curandeiro? De seus benzimento e curas? Teve familiares que vieram atrás dele? Então conheça a história desse homem, famoso personagem de São Caetano do Sul. O texto foi escrito por Priscila Gorzoni, pesquisadora e historiadora da Fundação Pró-Memória.

O misterioso curandeiro Vicente

Inaugurado em 1911, o Cemitério São Caetano não é só famoso por ser o primeiro da cidade. O local também é conhecido por ter, entre os seus falecidos, uma das figuras mais enigmáticas da história do município: Vicente, o curandeiro.

Esse famoso personagem era tão conhecido que, ainda hoje, é lembrado pelas romarias de doentes que vinham em busca de milagres e graças. Vicente alcançou o título de curandeiro por ter sido um dos maiores benzedores da região. Sua fama rompia distâncias, dificuldades e crenças, e o seu túmulo, ainda hoje, é um dos mais visitados do cemitério.

Demorou um pouco para eu encontrar a sua sepultura. O cemitério, embora pequeno, é repleto de criptas suntuosas e capelas esculturais. A de Vicente é baixa e simples. Está na parte de cima do sepulcrário, meio esquecido, sujo das folhas das árvores e do pó do tempo. Em meio a esse cenário, vejo a foto do curandeiro. A imagem retrata um homem de chapéu, barbas longas, olhar penetrante e semblante misterioso. Imagino a reação das pessoas ao se depararem com ele.

Contam que Vicente tinha um estilo peculiar de benzer. Ele recebia os doentes na porta de casa, com um caderno nas mãos, no qual anotava os nomes das pessoas e, em frente a eles, marcava uma cruz. Depois disso, Vicente dizia ao visitante que iria colocar seu nome nas luzes e pedia para que ela voltasse daqui a alguns dias. Nada era cobrado por suas curas.

Vicente não gostava que fizessem brincadeiras com os seus benzimentos. Um dia, veio a sua capela dois rapazes que moravam no Bairro do Ipiranga, na capital paulista. Um deles esfregou as mãos na boca, dizendo que sentia dor de dente. Vicente logo percebeu a mentira e disse: “Você veio me debochar. Então, vai ficar com dor de dente mesmo”. Imediatamente, o rapaz jogou-se no chão, com dores terríveis.

A segunda-feira era o dia de maior movimento, porque Vicente não atendia aos domingos. Antes de receber os visitantes, distribuía fichas e atendia rapidamente a cada um, colocando a mão no ombro das pessoas e indicando que passassem adiante. Outra curiosidade de Vicente era atender com a mão direita para cima. Perguntava o nome da pessoa e dizia as perturbações espirituais e as moléstias dos indivíduos. Por fim, recomendava novena.

Vicente morava no Bairro Santa Maria e faleceu em 1925. Por causa dele se criou uma estrada, onde milhares de pessoas passavam, só para conseguir uma cura. Enquanto olho sua foto, fico imaginando como seria receber seus benzimentos. Tenho uma base deles em relatos escritos por Ademir Medici, em seu livro Migração e Urbanização. O jornalista conta um dos casos, o de Caetana Palmiro, que, em 1920, com 2 anos de idade, não conseguia andar. Assim, seus pais resolveram levá-la a Vicente. O curandeiro tirou das mãos um anel de pedra preta e passou em Caetana. Depois, ordenou que a criança fosse levada ao pátio de sua casa, onde começou a andar.

O curandeiro não nasceu em São Caetano, veio com a família de Santo Amaro, entre 1906 e 1909. Era casado com Maria Joaquina de Jesus Vaz Rodrigues Vieira, que, na data do falecimento do marido, tinha 44 anos.

Os romeiros que vinham de longe tinham que ter paciência, pois chegar à casa de Vicente não era tarefa fácil. O casarão do benzedor estava localizado na parte alta do Bairro da Saúde (atual Santa Maria). Eles desembarcavam na estação ferroviária, caminhavam até o centro e entravam na Rua João Pessoa, conhecida na época como Virgilio Rezende. Então, ganhavam a Rua Goiás, que era chamada de Formicida, atingiam a Alameda São Caetano até que, no final da Rua Cassaquera, onde atualmente se encontra a Praça Francisco Pires, ficava a capela de Vicente.

Sua casa era uma fazenda, que tinha uma capela particular junto ao terreiro, toda decorada em tons dourados, pintada com figuras de anjos e santos. No altar de sua casa de orações, existia um Cristo crucificado e a imagem de São Pedro, cujo aniversário, em 29 de junho, era comemorado com festa.

Referência bibliográfica:
MÉDICI, Ademir: Migração e Urbanização: Presença de São Caetano do Sul na região do ABC, Editora Hucitec, São Caetano do Sul, 1993.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Lembranças do Cine Vitória e dos docinhos do Tio Vicente

Você que transita pelo Centro de São Caetano já deve ter reparado em um grande e, hoje, abandonado prédio no cruzamento das ruas Senador Roberto Simonsen e Baraldi. Há aqueles que conheceram o edifício como sendo igreja, bingo. Outros lembram-se dele como uma casa de shows. Mas a maior parte, certamente, se recorda do período em que o prédio abrigou o Cine Vitória, que marcou época em São Caetano.

Para todos vocês e também para aqueles que têm curiosidade em descobrir o que foi este local, boa leitura!!

Aproveitem o espaço dos comentários e nos contem suas lembranças!

Lembranças do Cine Vitória e dos docinhos do Tio Vicente

Priscila Gorzoni*

Andar pelas ruas do Centro de São Caetano é navegar pelas memórias do tempo. Alguns locais ainda guardam lembranças do que foram em nossa infância. Outros nos marcaram tanto, que ainda conseguimos fechar os olhos e vê-los exatamente como eram nas décadas passadas. Um deles é um grande prédio, no cruzamento das ruas Senador Roberto Simonsen e Baraldi. Essa construção, que já foi igreja, bingo e uma famosa casa de shows, um dia acomodou o Cine Vitória, que ainda ocupa o imaginário de muitos moradores da década de 1980.

Observando esse prédio hoje, que apenas lembra o cinema por sua localização, pelos ladrilhos escuros e pelas grandes portas centrais, me recordo da primeira vez que fui ao cinema.

Era então uma sessão das 14h, na qual a famosa matinê de domingo exibiria em primeira mão o filme Marcelino Pão e Vinho. E lá fui eu, acompanhada por minha irmã e minha mãe, comprar o bilhete de entrada. O Cine Vitória era o principal cinema de São Caetano, por isso vivia com longas filas. Majestoso, vivia cheio de gente e lotado de crianças.

Depois desse dia, em que entrei na sala de exibição e vi o tamanho do espaço, nunca mais deixei de visitar o cinema, virei fã. Passaram-se meses, anos, e então foi a vez de conferir E.T. – O Extraterrestre, filme muito concorrido. Para pegar um bom lugar, era preciso chegar bem cedo e enfrentar fila na porta.

Mesmo quando não tinha nada de novo para assistir, eu gostava de passar em frente ao prédio e ver os cartazes das próximas exibições.

Para quem não sabe, o Cine Vitória recebeu esse nome em homenagem ao seu criador, Vittorio Dal´Mas, que chegou ao município aos 12 anos de idade e tornou-se um importante empresário. Ele tinha o sonho de construir um grande edifício em São Caetano, mas só o concretizou após a autonomia político-administrativa do município, em outubro de 1948. Em 1949 foram feitos estudos e projetos do edifício e, em 1950, iniciou-se a construção do prédio.

Em 11 de fevereiro de 1995, o Cine Vitória foi lembrado durante uma palestra feita no prédio da Fundação Pró-Memória pelo engenheiro Mário Dal´Mas. Nela, ele relatou as expectativas da construção do Cine Vitória e o burburinho da cidade na época. Segundo Dal’Mal, as construções eram vistas como uma loucura, diziam que tal edifício não poderia ser comportado pela cidade. No entanto, a família empreendedora continuou firme em seus propósitos até que inaugurou o Cine Vitória em 29 de setembro de 1953 com a presença do então prefeito, Anacleto Campanella. “A avant-première foi patrocinada pelo Rotary de São Caetano do Sul em prol da construção de um posto de puericultura. O filme estrelado era O Falcão Dourado em technicolor”, conta o jornalista Ademir Médici (3). Depois disso, o local viveu seus altos e baixos, chegando a se transformar em dois cinemas: Cine Vitória I e II.

O projeto foi feito com recursos próprios e compreendia cinema, 56 salas comerciais, vários salões de festas e uma galeria de 12 mil metros quadrados. Ao longo dos anos, o prédio abrigou vários departamentos, entre eles os poderes Executivo e Legislativo, cartório, grêmio, sendo, inclusive, palco de exposições de arte (2).

A inauguração do Cine Vitória foi marcada pelo lançamento de uma revista. A publicação fez tanto sucesso, que acabou tendo um segundo número em comemoração ao aniversário da cidade.

Na primeira edição, o Cine Vitória era apresentado ao público como um equipamento de última geração: som e projeção simples X-L, o que o comparava aos melhores cinemas do mundo. Fora isso, os filmes exibidos eram programados pela Companhia Cinematográfica Serrador, Art Palácio, Ipiranga, Bandeirantes, Opera e Broadway.

Desde o início, o Vitória contou com poltronas estofadas, sistema moderno de projeção, acústica e ventilação bem-cuidadas e uma boa visibilidade, já que a sala foi construída em dois planos. Também foi realizado contrato com a Distribuidora Serrador para que os filmes recém-lançados fossem exibidos em primeira mão (4).

Mais tarde, o Vitória viveu sua primeira grande restauração para recuperar seu estilo original e tentar resistir à invasão dos shoppings. Ele ressurgiria com novo sistema de iluminação e som, em um investimento que totalizava 14 milhões de cruzeiros.

É impossível pensar no Cine Vitória e não se lembrar da Doceria Jóia ou do Tio Vicente. A doceria ficava em um local estratégico, na Rua Baraldi, exatamente em frente ao Cine Vitória. Os doces eram magníficos.

Tio Vicente se chamava Vicente Gombi e chegou a São Caetano do Sul em 1953. Nascido na cidade de Rokovci, na antiga Iugoslávia, em 1914, veio para a cidade estimulado pelos amigos que aqui viviam. Primeiro, morou na Vila Paula e teve como emprego carregar barro na Cerâmica São Caetano. Mais tarde, começou a trabalhar no restaurante Rutly como lavador de pratos e ali pegou gosto pela culinária. Em seguida, mudou de emprego, desta vez para uma doceria em São Paulo, sendo que, mais tarde, montou a sua própria doceria, que funcionou até o final da década de 1990.

Assim como a Doceria Jóia, o Cine Vitória perdeu força. Foram substituídos por outros estabelecimentos e a dinâmica da modernidade. No caso do Cine Vitória, a moda de construir cinemas dentro de shoppings enfraqueceu sua majestade e, então, ele se transformou em uma casa de shows.

A derrocada final aconteceu em uma terça-feira, 1° de setembro de 1998. Era então um dia comum, se não fosse pela última sessão de seu funcionamento. Na sala de cinema apenas 100 espectadores assistiram ao filme norte-americano Armageddon.

NOTAS:

(1)   XAVIER, Sônia Maria Franco, Os cinemas de São Caetano- Revista Raízes 39, julho de 1991.
(2)   DAL`MAS, Mário, Edifício Vitória: o ideal de um imigrante, Raízes Julho de 1995.
(3)   Jornal Diário do Grande ABC, Grande ABC Memória, Ademir Médici, setembro de 1953.
(4)   XAVIER, Sônia Maria Franco, Os cinemas de São Caetano- Revista Raízes 39, julho de 1991.

*Priscila Gorzoni é pesquisadora e historiadora da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Homem da Capa Preta

Para esta semana, separamos para vocês outro artigo da historiadora e pesquisadora da Fundação Pró-Memória Priscila Gorzoni. Desta vez, além de contarmos a história de uma figura curiosa de São Caetano do Sul, ela também pode ser considerada como amedrontadora. E eis que lhes apresento, o Homem da Capa Preta!!!

O Homem da Capa Preta

O Homem da Capa Preta é um dos personagens mais enigmáticos da década de 1940. Ele se tornou tão marcante na história de São Caetano do Sul, que pode ser considerado um mito regional. Assim como ocorre com outros seres misteriosos, poucos se arriscam a falar dele e os relatos lidos nunca são muito aprofundados. No entanto, esse mito é compartilhado e acreditado por toda a comunidade da qual faz parte. Como diria o sociólogo e antropólogo, Erving Goffman[1] em A representação do eu na vida cotidiana, “quando um indivíduo desempenha um papel, implicitamente solicita de seus observadores que levem a sério a impressão sustentada perante eles”. É exatamente isso o que acontece com o Homem da Capa Preta. Todos sabem que é um personagem e se torna importante à medida que a comunidade o transforma em algo real que, por meio de sua postura, traz à tona os valores desta mesma comunidade.

Goffman explica que quando um indivíduo, ou, no caso, o Homem da Capa Preta apresenta-se diante dos outros, seu desempenho tenderá a incorporar e exemplificar os valores oficialmente reconhecidos pela sociedade e até realmente mais do que o comportamento do indivíduo como um todo.  

Além de reforçar os valores existentes nesta sociedade, o Homem da Capa Preta faz parte da história da cidade, encaixa-se na área da Cultura Popular, assunto tratado pelo folclorista Luís da Câmara Cascudo. Para aqueles que subestimam os mitos e assombrações, eles participam da essência intelectual humana e não há momento na história do mundo sem sua inevitável presença. “A elevação dos padrões de vida, o domínio da máquina, a cidade industrial ou tumultuada em sua grandeza assombrosa são outros tantos viveiros de superstição, velhas, novas, readaptadas às necessidades modernas e técnicas”, ressalta o historiador José Odair.

Na tentativa de resgatar um pouco desses mitos e superstições, foram lidos muitos artigos sobre São Caetano na busca desses personagens assombrosos, mas pouca informação foi encontrada sobre o assunto. Por isso, foram ouvidos vários moradores antigos e novos da cidade para que nos dessem seus relatos, cheios de pormenores, surpresas e curiosidades...

Assombrações no folclore - Se o folclorista Luis da Câmara Cascudo tivesse vindo para São Caetano mapear seus mitos assombrosos, certamente não deixaria de fora o Homem da Capa Preta, que entraria no ciclo da angústia infantil. Embora esse personagem não seja bem uma assombração, já que era alguém que se vestia ou fantasiava-se de Homem de Capa Preta, podemos considerá-lo um mito ou uma lenda.

Dentro do ciclo da angústia infantil, onde se encaixaria esse personagem, encontramos mitos e seres assombrosos, que têm por objetivo educar crianças e mulheres por meio da sugestão do medo. Sua presença assustadora impunha uma espécie de toque de recolher aos moradores de São Caetano nas décadas de 1920 e 1930.

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come... - Nas décadas de 1920 e 1930, as mulheres eram as mais atemorizadas. Elas evitavam sair de casa após as 22h, por medo de encontrar o Homem da Capa Preta, como é conhecida uma figura sem rosto, magra, que vagava pelas ruas da cidade nas altas horas da noite, vestido com o item que o caracterizava. As pessoas que encontraram o Homem da Capa Preta juravam que ele perseguia quem vagava nas ruas de madrugada.

Esse Homem da Capa Preta, afinal, tomou tanta forma e força que passou a ser usado também como argumento de obediências às mães. Ao primeiro sinal de rebeldia dos filhos, elas logo avisavam: ‘Olha o Homem da Capa Preta! Ele pega você lá fora!’. Conclusão: o Homem do Saco Preto, de outras regiões, passou a ser em São Caetano o Homem da Capa Preta.

Mas não se enganem! Ainda segundo depoimentos, essa figura nada tinha de sobrenatural, muito pelo contrário. O Homem da Capa Preta era o juiz de paz João Rela, que adorava mostrar como era respeitado, vestindo uma capa preta que lhe caía abaixo dos joelhos.

O relato mais contundente dessa figura aparece quando Elvira e Olívia Buso saíram para fazer compras no açougue dos Lorenzini, na Rua Rio Branco, quando já escurecia. Atemorizadas pela escuridão da época, elas já saíram sugestionadas pelo temor da perseguição do Homem da Capa Preta. Ora, foi dito e feito! Pois, quando já estavam retornando, deram-se conta de que estavam sendo seguidas por um vulto. Então puseram-se  a correram, muito assustadas.

José de Souza Martins faz uma análise interessante sobre esse personagem curioso que surge exatamente na época de repressão policial junto aos operários comunistas. Ademir Médici, no livro Migração e Urbanização: a presença de São Caetano na região do ABC, dedica um pequeno espaço ao personagem. Ele conta que João Rela levou para o túmulo a fama de ser o Homem da Capa Preta. Todos sabiam que ele era o personagem enigmático. No entanto, nunca um inquérito foi aberto e nem uma prova mais concreta foi apresentada. Mas ficou a versão, assumida por ele próprio, com muito humor, entendida por amigos e familiares, colocada, vez ou outra, pela imprensa semanal.

O Homem da Capa Preta simbolizava não só uma lenda, mas o rigor disciplinar dos costumes da época, quando raras mulheres e crianças se permitiam sair às ruas tarde da noite. Portanto, não é à toa que eram as donzelas as mais assustadas com esta figura.

Quem foi ele? - João Rela nasceu em Itatiba, no interior de São Paulo, em 16 de setembro de 1889, filho de Giácomo e Antonieta Rela. Veio para o ABC na década de 1910. Foi chefe da estação ferroviária em Campo Grande e, em 1917, mudou-se para São Caetano, como chefe da estação local, na ferrovia São Paulo Railway. Além de padaria, ele teve também seu escritório de despachante. Foi vereador e juiz de paz, ale, de escrever poemas e contos. Faleceu no dia 3 de junho de 1970, aos 81 anos.


Referências bibliográficas:

CASCUDO, Luis Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. São Paulo: ed. Global, 2002.
________. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: ed. Global, 2002.
________. Locuções tradicionais no Brasil. São Paulo: Global, 2002.
MÉDICI, Ademir: Migração e Urbanização: Presença de São Caetano do Sul na região do ABC, Editora Hucitec, São Caetano do Sul, 1993.




[1] Nasceu no Canadá, em 1922, é sociólogo e antropólogo. Atualmente é professor de sociologia e faz pesquisas para a Universidade da Califórnia, em Berkeley. 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A Capela dos Cavana

Nesta quarta-feira (10/9), divulgamos mais um texto, escrito pela historiadora e pesquisadora da Fundação Pró-Memória Priscila Gorzoni. Hoje vocês conhecerão um local que existe em São Caetano do Sul desde o século 19, mas que muitos desconhecem a história que o envolve. Com vocês, a Capela dos Cavana!!!

Antes de desejar-lhes boa leitura, gostaríamos de fazer um convite a todos aqueles que também têm histórias interessantes para contar: envie seu texto para o email jornalismo@fpm.org.br. Estamos ansiosos para lê-lo e compartilhá-lo com outros leitores!


A Capela dos Cavana

Priscila Gorzoni*

Em todos os cantos e recantos do mundo existem lugares inusitados. Locais que destoam do tempo ou que parecem esquecidos de uma época. Em São Paulo, encontramos vários destes pontos, como o Edifício Joelma, a Casa das Rosas, o Castelinho da Rua Apa, a Capela dos Aflitos, o Edifício Martinelli, o Teatro Municipal, a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, entre outros. Cada uma destas construções guarda a arquitetura e história de uma época.

As metrópoles escondem esses locais, que muitas vezes passam despercebidos em nossa vida acelerada. Eles podem ser chamados de lugares de memória[i], que são, antes de tudo, restos. Eles nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, manter aniversários, organizar celebrações, entre outros acontecimentos. Também podemos chamar esses locais de ilhas de passado conservadas[ii].

Conhecer um pouco destes locais é entrar nos lugares de memória ou nas ilhas de passado conservadas. É uma experiência fundamental para compreender a história e a memória da cidade e dos moradores que ali viveram e que por ali passaram.

Criar roteiros turísticos nesses pontos tem sido uma tendência atual em várias cidades brasileiras. Na capital paulista, a empresa Griffit criou um roteiro de quatro horas que sai do Largo do Arouche, passa pelo Castelinho da Rua Apa e termina no Edifício Joelma. O objetivo do passeio é contar um pouco da história da cidade por meio de seus prédios e lendas. Esse trabalho se iniciou no ano 2000. Há um ano, a mesma empresa também lançou o roteiro São Paulo Além dos Túmulos.

Mas não é só em São Paulo que encontramos esse tipo de turismo. Há também o exemplo de Recife, que desenvolveu o roteiro turístico Recife Assombrado, que passa por casarões, museus e teatros da cidade. A ideia é falar um pouco de cada um destes locais e despertar o interesse e a curiosidade dos moradores, turistas e pesquisadores em geral.

Em São Caetano, temos diversos exemplos destes pontos curiosos. Um deles é a Capela dos Cavana, localizada na Rua Luís Cavana, s/n°. Essa pequena capela branca, escondida em uma das travessas da Avenida Senador Roberto Simonsen, foi construída em homenagem a Santo Antônio, por Ângelo Cavana, e preservada pelas novas gerações da família.

Várias missas foram celebradas nessa capela a partir de junho de 1893. A história da família Cavana em São Caetano é bem antiga e, assim como outros moradores da cidade, seus integrantes conservavam a tradição religiosa dos antepassados, os imigrantes italianos.

Nos primeiros tempos de São Caetano, existia apenas a Igreja Matriz Velha, construída em 1883, no Bairro da Fundação. Mas os imigrantes italianos eram muito religiosos e tinham o costume de construir capelas nos terrenos de suas casas. Assim a família Cavana, que tinha uma grande área no Bairro Centro, sob o comando de dona Joana Cavana, matriarca da família, decidiu erguer a Capela dos Cavana.

Construída no século passado, se ainda existisse, ficaria a 100 metros de onde era o Cine Vitória, na Rua Baraldi. Na época, a capela era grande e espaçosa. Era ali que Adolphina Geccato e a jovem Santa Cavana, filha de Joana, ministravam aulas de catecismo, preparando meninas e meninos para a primeira comunhão. Todos os anos, em 13 de junho, dia de Santo Antônio, um padre deslocava-se da Matriz Velha para rezar uma missa na capela, que era assistida por centenas de fiéis. Contudo, após algum tempo, a capela foi demolida e uma nova construção, menor, sobrevive até hoje na Rua Luís Cavana.

Vale lembrar que naquela época as casas eram bem diferentes das atuais. Eram chamadas de cortiços e reuniam até 15 famílias em um mesmo terreno. O cortiço dos Cavana era referência e tinha a forma arredondada. Havia, como nos demais, uma solidariedade entre as famílias. No pátio eram realizadas festas juninas e outras celebrações.

Curiosidade - 1

A denominação de Vila Santo Antônio, que, posteriormente se generalizou em direção a outras colônias, nasceu da capela que os Cavana construíram. A expressão foi oficializada quando houve a abertura do loteamento nas terras dos Cavana, mas só viria a ser consagrada no final dos anos 1930.

Curiosidade - 2

Em 2003, a Fundação Pró-Memória sinalizou a Capela dos Cavana como um local de interesse histórico para a população como parte do projeto 2ª Caminhada da Memória de São Caetano do Sul, que integrou um total de três caminhadas históricas realizadas na cidade. Outros locais sinalizados nesta edição foram: Árvore da Amizade, Indústria de Porcelanas Teixeira, Edifício Vitória, Loja Maçônica Fraternidade São Caetano, Grêmio ideal - Rádio cacique, Edifício Fortaleza, Sociedade Religiosa Israelita, Capela Santo Antônio, Grupo Escola Senador Roberto Simonsen e a primeira sede da prefeitura de São Caetano.

Quem eram os Cavana?

A família de Pasquale Cavana chegou a São Caetano do Sul com a segunda leva dos imigrantes italianos, no início de 1878. Na mesma leva estava a família de Felippo Roveri, que se estabeleceu como colônia, ao lado dos Cavana.

Você sabia que...

O Bairro Santo Antônio foi formado a partir da instalação de olarias próximas à várzea do Rio dos Meninos e de um setor residencial na parte alta do bairro. A antiga Rua Santo Antônio, que atualmente se chama Avenida Senador Roberto Simonsen, recebeu esse nome em razão da Capela Santo Antônio. Até os anos 1940, no Bairro Santo Antônio, não havia igrejas, clubes e outros serviços. Em 1954, no aniversário da cidade, o bairro ganhou o Grupo Escolar Bartolomeu Bueno da Silva e o Jardim Primeiro de Maio. Em 1974, a Avenida Goiás mereceu grande ampliação.

Referências bibliográficas:

MÉDICI, Ademir: Migração e Urbanização: Presença de São Caetano do Sul na região do ABC, Editora Hucitec, São Caetano do Sul, 1993.

Era uma vez (crônica de uma época), Jayme da Costa Patrão, Revista Raízes número 4.

*É jornalista e pesquisadora, formada pela Universidade Metodista de São Paulo, em ciências sociais pela Universidade de São Paulo e em direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem pós-graduação em fundamentos e artes pelo Instituto de Artes da Unesp de São Paulo e atualmente faz mestrado em história, com projeto de antropologia histórica pela PUC-SP. Como jornalista, escreve para as revistas National Geographic Brasil, da Editora Abril, História em Curso, da Editora Minuano, e para a Raízes, da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul. 





[i] Termo definido por Pierre Nora no texto Entre memória e história: a problemática dos lugares.
[ii] Termo citado por Maurice Halbwachs em A Memória Coletiva.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

As aventuras de Negão

Começamos nesta terça-feira a divulgar uma série de crônicas sobre a cidade de São Caetano do Sul, escritas pela pesquisadora e historiadora da Fundação Pró-Memória Priscila Gorzoni. Publicaremos uma crônica por semana.

Por meio de temas diversos, personagens até então anônimos e locais desconhecidos vão sendo desvendados pelos textos de Priscila, fazendo com que nós, leitores, descubramos outras facetas da cidade.

Antes de desejar-lhes boa leitura, gostaríamos de fazer um convite a todos aqueles que também têm histórias interessantes para contar: nos envie o texto para o email jornalismo@fpm.org.br. Estamos ansiosos!

As aventuras de Negão


Priscila Gorzoni*

“A grandeza de uma nação pode ser julgada pela forma com que seus animais são tratados”
Mahatma Ghandi

Mudei o meu trajeto diário até o trabalho só para ver o Negão, uma mistura de pequinês e sem raça definida. Eu estava preocupada com ele, imaginava que podia ser mais um cachorro de rua. Por sorte, descobri que não era.

A primeira vez que o vi, ele sacolejava o pequeno corpo peludo pela Rua Oswaldo Cruz, entre um carro e outro. Fiquei preocupada com sua integridade física, mas Negão já estava longe, não dava tempo de alcançá-lo para poder assegurar-me de que chegaria bem ao seu destino.

Negão, como todos os cachorros, é de uma inteligência fora do comum. Inteligência que ainda tira o sono de vários pesquisadores especializados no assunto. Eu nunca duvidei da inteligência dos animais.

Já faz mais de sete meses que o acompanho, e foi em uma destas minhas observações que descobri que Negão tem morada e dono. Quem se ocupa dele são os funcionários de um estacionamento localizado na Rua Amazonas. Ele é bem cuidado, gordinho e, pelo seu andar, já tem certa idade.

Uma noite, voltando de uma palestra, o vi perambulando pelos arredores de um jardim. Ele ia longe, andar lento, balançado, feliz. Caía uma chuvinha fina e fria, mas Negão parecia não se importar com o tempo. Quando percebi, ele já havia virado a esquina, e provavelmente voltado para a sua morada.

Preocupada, perguntei para um guarda sobre o cachorrinho. Ele me informou que Negão pertencia ao dono do estacionamento e que todos os moradores ajudavam a cuidar dele. Fiquei mais aliviada. Alguns dias depois, fiz contato com a Associação Protetora dos Animais de São Caetano do Sul, e eles me informaram que Negão fazia visitas frequentes ao veterinário. Ele me parecia bem, apesar dos pelos emaranhados.

Nunca vi o Negão bravo. Só uma vez, quando ele começou a latir para um homem embriagado que passava em sua calçada. Neste dia, ele mostrou os pequenos dentinhos e avançou sobre o invasor.

Em outra manhã, ele voltava de seu passeio matinal, em passos lentos, quando parou exatamente ao meu lado para atravessar a Rua Amazonas. Eu olhei para ele, decidida a atravessá-lo. Ele me olhou de volta, parecia me conhecer, e então eu o chamei: ‘-Vem, vem!’.

Ele me olhou um pouco desconfiado, algo que considerei importante para os animais, já que, infelizmente, os seres humanos não são tão confiáveis.

Hoje novamente mudei o meu trajeto, mas não vi o Negão. Imaginei que estaria fazendo seu passeio matinal...

*É jornalista e pesquisadora, formada pela Universidade Metodista de São Paulo, em ciências sociais pela Universidade de São Paulo e em direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem pós-graduação em fundamentos e artes pelo Instituto de Artes da Unesp de São Paulo e atualmente faz mestrado em história, com projeto de antropologia histórica pela PUC-SP. Como jornalista, escreve para as revistas National Geographic Brasil, da Editora Abril, História em Curso, da Editora Minuano, e para a

Raízes, da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul.