quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A Capela dos Cavana

Nesta quarta-feira (10/9), divulgamos mais um texto, escrito pela historiadora e pesquisadora da Fundação Pró-Memória Priscila Gorzoni. Hoje vocês conhecerão um local que existe em São Caetano do Sul desde o século 19, mas que muitos desconhecem a história que o envolve. Com vocês, a Capela dos Cavana!!!

Antes de desejar-lhes boa leitura, gostaríamos de fazer um convite a todos aqueles que também têm histórias interessantes para contar: envie seu texto para o email jornalismo@fpm.org.br. Estamos ansiosos para lê-lo e compartilhá-lo com outros leitores!


A Capela dos Cavana

Priscila Gorzoni*

Em todos os cantos e recantos do mundo existem lugares inusitados. Locais que destoam do tempo ou que parecem esquecidos de uma época. Em São Paulo, encontramos vários destes pontos, como o Edifício Joelma, a Casa das Rosas, o Castelinho da Rua Apa, a Capela dos Aflitos, o Edifício Martinelli, o Teatro Municipal, a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, entre outros. Cada uma destas construções guarda a arquitetura e história de uma época.

As metrópoles escondem esses locais, que muitas vezes passam despercebidos em nossa vida acelerada. Eles podem ser chamados de lugares de memória[i], que são, antes de tudo, restos. Eles nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, manter aniversários, organizar celebrações, entre outros acontecimentos. Também podemos chamar esses locais de ilhas de passado conservadas[ii].

Conhecer um pouco destes locais é entrar nos lugares de memória ou nas ilhas de passado conservadas. É uma experiência fundamental para compreender a história e a memória da cidade e dos moradores que ali viveram e que por ali passaram.

Criar roteiros turísticos nesses pontos tem sido uma tendência atual em várias cidades brasileiras. Na capital paulista, a empresa Griffit criou um roteiro de quatro horas que sai do Largo do Arouche, passa pelo Castelinho da Rua Apa e termina no Edifício Joelma. O objetivo do passeio é contar um pouco da história da cidade por meio de seus prédios e lendas. Esse trabalho se iniciou no ano 2000. Há um ano, a mesma empresa também lançou o roteiro São Paulo Além dos Túmulos.

Mas não é só em São Paulo que encontramos esse tipo de turismo. Há também o exemplo de Recife, que desenvolveu o roteiro turístico Recife Assombrado, que passa por casarões, museus e teatros da cidade. A ideia é falar um pouco de cada um destes locais e despertar o interesse e a curiosidade dos moradores, turistas e pesquisadores em geral.

Em São Caetano, temos diversos exemplos destes pontos curiosos. Um deles é a Capela dos Cavana, localizada na Rua Luís Cavana, s/n°. Essa pequena capela branca, escondida em uma das travessas da Avenida Senador Roberto Simonsen, foi construída em homenagem a Santo Antônio, por Ângelo Cavana, e preservada pelas novas gerações da família.

Várias missas foram celebradas nessa capela a partir de junho de 1893. A história da família Cavana em São Caetano é bem antiga e, assim como outros moradores da cidade, seus integrantes conservavam a tradição religiosa dos antepassados, os imigrantes italianos.

Nos primeiros tempos de São Caetano, existia apenas a Igreja Matriz Velha, construída em 1883, no Bairro da Fundação. Mas os imigrantes italianos eram muito religiosos e tinham o costume de construir capelas nos terrenos de suas casas. Assim a família Cavana, que tinha uma grande área no Bairro Centro, sob o comando de dona Joana Cavana, matriarca da família, decidiu erguer a Capela dos Cavana.

Construída no século passado, se ainda existisse, ficaria a 100 metros de onde era o Cine Vitória, na Rua Baraldi. Na época, a capela era grande e espaçosa. Era ali que Adolphina Geccato e a jovem Santa Cavana, filha de Joana, ministravam aulas de catecismo, preparando meninas e meninos para a primeira comunhão. Todos os anos, em 13 de junho, dia de Santo Antônio, um padre deslocava-se da Matriz Velha para rezar uma missa na capela, que era assistida por centenas de fiéis. Contudo, após algum tempo, a capela foi demolida e uma nova construção, menor, sobrevive até hoje na Rua Luís Cavana.

Vale lembrar que naquela época as casas eram bem diferentes das atuais. Eram chamadas de cortiços e reuniam até 15 famílias em um mesmo terreno. O cortiço dos Cavana era referência e tinha a forma arredondada. Havia, como nos demais, uma solidariedade entre as famílias. No pátio eram realizadas festas juninas e outras celebrações.

Curiosidade - 1

A denominação de Vila Santo Antônio, que, posteriormente se generalizou em direção a outras colônias, nasceu da capela que os Cavana construíram. A expressão foi oficializada quando houve a abertura do loteamento nas terras dos Cavana, mas só viria a ser consagrada no final dos anos 1930.

Curiosidade - 2

Em 2003, a Fundação Pró-Memória sinalizou a Capela dos Cavana como um local de interesse histórico para a população como parte do projeto 2ª Caminhada da Memória de São Caetano do Sul, que integrou um total de três caminhadas históricas realizadas na cidade. Outros locais sinalizados nesta edição foram: Árvore da Amizade, Indústria de Porcelanas Teixeira, Edifício Vitória, Loja Maçônica Fraternidade São Caetano, Grêmio ideal - Rádio cacique, Edifício Fortaleza, Sociedade Religiosa Israelita, Capela Santo Antônio, Grupo Escola Senador Roberto Simonsen e a primeira sede da prefeitura de São Caetano.

Quem eram os Cavana?

A família de Pasquale Cavana chegou a São Caetano do Sul com a segunda leva dos imigrantes italianos, no início de 1878. Na mesma leva estava a família de Felippo Roveri, que se estabeleceu como colônia, ao lado dos Cavana.

Você sabia que...

O Bairro Santo Antônio foi formado a partir da instalação de olarias próximas à várzea do Rio dos Meninos e de um setor residencial na parte alta do bairro. A antiga Rua Santo Antônio, que atualmente se chama Avenida Senador Roberto Simonsen, recebeu esse nome em razão da Capela Santo Antônio. Até os anos 1940, no Bairro Santo Antônio, não havia igrejas, clubes e outros serviços. Em 1954, no aniversário da cidade, o bairro ganhou o Grupo Escolar Bartolomeu Bueno da Silva e o Jardim Primeiro de Maio. Em 1974, a Avenida Goiás mereceu grande ampliação.

Referências bibliográficas:

MÉDICI, Ademir: Migração e Urbanização: Presença de São Caetano do Sul na região do ABC, Editora Hucitec, São Caetano do Sul, 1993.

Era uma vez (crônica de uma época), Jayme da Costa Patrão, Revista Raízes número 4.

*É jornalista e pesquisadora, formada pela Universidade Metodista de São Paulo, em ciências sociais pela Universidade de São Paulo e em direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem pós-graduação em fundamentos e artes pelo Instituto de Artes da Unesp de São Paulo e atualmente faz mestrado em história, com projeto de antropologia histórica pela PUC-SP. Como jornalista, escreve para as revistas National Geographic Brasil, da Editora Abril, História em Curso, da Editora Minuano, e para a Raízes, da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul. 





[i] Termo definido por Pierre Nora no texto Entre memória e história: a problemática dos lugares.
[ii] Termo citado por Maurice Halbwachs em A Memória Coletiva.

3 comentários:

  1. MEU NONO UMBERTO BARELLA NASCEU NA ITÁLIA , AO 5 ANOS VEIO PARA O BRASIL , FORAM PARA PIRACICABA, MEU NONO MUDOU-SE PARA SÃO CAETANO DO SUL MORAVA NA RUA MUNICIPAL 307 , CASOU-SE COM DUSOLINA FAGANELLO BARELLA , TIVERAM 8 FILHOS , MEU NONO ERA CORRETOR DE IMÓVEIS , MEU PAI ANTENOR BARELLA TRABALHOU NA TEXACO POR 45 ANOS , MORAVAMOS NA RUA MARANHÃO 1235 NA SANTA PAULA ,EU CLEIDE BARELLA , TURIMÓLOGA , TRABALHEI EM BANCO POR 42 ANOS , ATUALMENTE MORO EM SANTOS , MAS NÇAO ESQUEÇO A MINHA QUERIDA SÃO CAETANO.

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  2. Olá, Cleide! Ficamos muito felizes em ouvir o seu relato e em saber que São Caetano está em sua memória afetiva. Esperamos que continue acompanhando os textos aqui postados para que, apesar da distância, eles possam te aproximar emocionalmente da sua terra querida!

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  3. Boa tarde. Meu nome é José Manoel Ferreira. Sou nascido e criado em São Caetano, mas atualmente moro em Santo André. Sou médico geriatra e trabalho numa casa de repouso na Rua Luis Cavana. Eu não sabia da existência dessa capela e, um dia , a descobri sem querer. Me encantei, tirei algumas fotos ( que depois posso te mandar se quiser) e corri para internet afim de conhecer sua história. Parabéns pela matéria!!!!

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