terça-feira, 2 de setembro de 2014

As aventuras de Negão

Começamos nesta terça-feira a divulgar uma série de crônicas sobre a cidade de São Caetano do Sul, escritas pela pesquisadora e historiadora da Fundação Pró-Memória Priscila Gorzoni. Publicaremos uma crônica por semana.

Por meio de temas diversos, personagens até então anônimos e locais desconhecidos vão sendo desvendados pelos textos de Priscila, fazendo com que nós, leitores, descubramos outras facetas da cidade.

Antes de desejar-lhes boa leitura, gostaríamos de fazer um convite a todos aqueles que também têm histórias interessantes para contar: nos envie o texto para o email jornalismo@fpm.org.br. Estamos ansiosos!

As aventuras de Negão


Priscila Gorzoni*

“A grandeza de uma nação pode ser julgada pela forma com que seus animais são tratados”
Mahatma Ghandi

Mudei o meu trajeto diário até o trabalho só para ver o Negão, uma mistura de pequinês e sem raça definida. Eu estava preocupada com ele, imaginava que podia ser mais um cachorro de rua. Por sorte, descobri que não era.

A primeira vez que o vi, ele sacolejava o pequeno corpo peludo pela Rua Oswaldo Cruz, entre um carro e outro. Fiquei preocupada com sua integridade física, mas Negão já estava longe, não dava tempo de alcançá-lo para poder assegurar-me de que chegaria bem ao seu destino.

Negão, como todos os cachorros, é de uma inteligência fora do comum. Inteligência que ainda tira o sono de vários pesquisadores especializados no assunto. Eu nunca duvidei da inteligência dos animais.

Já faz mais de sete meses que o acompanho, e foi em uma destas minhas observações que descobri que Negão tem morada e dono. Quem se ocupa dele são os funcionários de um estacionamento localizado na Rua Amazonas. Ele é bem cuidado, gordinho e, pelo seu andar, já tem certa idade.

Uma noite, voltando de uma palestra, o vi perambulando pelos arredores de um jardim. Ele ia longe, andar lento, balançado, feliz. Caía uma chuvinha fina e fria, mas Negão parecia não se importar com o tempo. Quando percebi, ele já havia virado a esquina, e provavelmente voltado para a sua morada.

Preocupada, perguntei para um guarda sobre o cachorrinho. Ele me informou que Negão pertencia ao dono do estacionamento e que todos os moradores ajudavam a cuidar dele. Fiquei mais aliviada. Alguns dias depois, fiz contato com a Associação Protetora dos Animais de São Caetano do Sul, e eles me informaram que Negão fazia visitas frequentes ao veterinário. Ele me parecia bem, apesar dos pelos emaranhados.

Nunca vi o Negão bravo. Só uma vez, quando ele começou a latir para um homem embriagado que passava em sua calçada. Neste dia, ele mostrou os pequenos dentinhos e avançou sobre o invasor.

Em outra manhã, ele voltava de seu passeio matinal, em passos lentos, quando parou exatamente ao meu lado para atravessar a Rua Amazonas. Eu olhei para ele, decidida a atravessá-lo. Ele me olhou de volta, parecia me conhecer, e então eu o chamei: ‘-Vem, vem!’.

Ele me olhou um pouco desconfiado, algo que considerei importante para os animais, já que, infelizmente, os seres humanos não são tão confiáveis.

Hoje novamente mudei o meu trajeto, mas não vi o Negão. Imaginei que estaria fazendo seu passeio matinal...

*É jornalista e pesquisadora, formada pela Universidade Metodista de São Paulo, em ciências sociais pela Universidade de São Paulo e em direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem pós-graduação em fundamentos e artes pelo Instituto de Artes da Unesp de São Paulo e atualmente faz mestrado em história, com projeto de antropologia histórica pela PUC-SP. Como jornalista, escreve para as revistas National Geographic Brasil, da Editora Abril, História em Curso, da Editora Minuano, e para a

Raízes, da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul. 

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