terça-feira, 14 de maio de 2013

Amparo ao migrante nordestino em São Caetano


É com grande satisfação que compartilho com vocês uma parte das reflexões e discussões feitas em minha pesquisa de mestrado, defendida em maio do ano passado, junto ao Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Tais discussões foram publicadas na 71ª edição da Revista Travessia, uma publicação tradicional do Centro de Estudos Migratórios.

Este blog, que endossa o compromisso da Fundação Pró-Memória para com os assuntos relativos ao patrimônio histórico local, é, sem dúvida, uma conquista não só da instituição, mas, principalmente, da sociedade, que, por meio dele, poderá colaborar com textos e usufruir das ideias aqui partilhadas. Que esta importante ferramenta virtual nos auxilie na divulgação de vestígios e rastros deixados pela história!    
    
Sociedade Beneficente Brasil Unido
Entidade de amparo ao migrante nordestino em São Caetano do Sul

Cristina Toledo de Carvalho*
* Historiadora da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul e Mestre em História Social pela PUC/SP 

Embora com finalidades distintas das instituídas na época de sua fundação, em 2 de julho de 1950, a Sociedade Beneficente Brasil Unido continua em atividade no município de São Caetano do Sul, no Grande ABC paulista. Se hoje a entidade atua, prioritariamente, como uma associação recreativa, que coloca à disposição de seus sócios e demais interessados seu salão de festas para eventos e comemorações de datas especiais, no passado, suas ações consistiam, basicamente, na promoção de iniciativas de amparo ao migrante nordestino1.

Surgida no contexto dos intensos processos de urbanização e industrialização da cidade e região, a Brasil Unido foi fruto das articulações de um grupo formado, predominantemente, por nordestinos que usufruíam de uma boa situação socioeconômica em São Caetano. Bem integrados na sociedade local, tal grupo se firmou como uma referência para os migrantes que chegavam ao município sem condições mínimas de inserção social, em virtude, principalmente, de sua baixa ou nenhuma escolaridade, da falta de documentos e de dinheiro. A existência de todos esses problemas foi a tônica da criação e da atuação da entidade.

Alguns dias antes de sua fundação, o grupo que lançou a proposta do amparo aos nordestinos instalados em território sul-sancaetanense, divulgou, por meio de um panfleto distribuído na cidade, datado de 27 de junho de 1950, seus objetivos quanto à prestação de auxílios aos migrantes:

Caro conterrâneo: Desde que chegamos às plagas da Paulicéa, foi sempre a nossa maior preocupação patriótica proporcionar a todos os nortistas, que aqui residem ou venham em busca de trabalho, uma assistência moral e material. Daí nasceu a idéia de fundarmos um núcleo que, congregando-nos indistintamente, pudesse preencher as falhas, ainda existentes, que tantas dificuldades causam aos recém-chegados, principalmente (1950a)2.


A força da presença nordestina e os problemas de um município recém-criado: cenário propício à atuação da Brasil Unido

Com a divulgação de tal proposta, o primeiro passo havia sido dado. A ideia daquele grupo mentor, que era constituído por 13 nordestinos3, foi a semente que originaria a Sociedade Beneficente Brasil Unido. Assim, com a institucionalização da proposta de amparo, seria possível tomar providências mais articuladamente, visto que os problemas levados ao conhecimento da entidade passariam a ser tratados não de forma isolada, mas sim a partir de um aparato institucional que orientaria e agilizaria os procedimentos ou caminhos a serem seguidos na busca por medidas que pudessem resolvê-los ou, no mínimo, amenizá-los. A proposta de congregação nordestina encaminhada por aquele grupo, ao se converter na criação de uma entidade de amparo, evidencia a presença maciça de nordestinos nos quatro cantos de São Caetano do Sul e também a dimensão de suas necessidades e demandas.

O episódio do aparecimento de uma entidade como a Brasil Unido, por si só, já se põe como uma constatação plausível da força nordestina junto ao montante da população de São Caetano do Sul, naquele início dos anos 1950. Mesmo não tendo sido possível encontrar índices ou estatísticas que pudessem informar, de modo preciso, a porcentagem de moradores provenientes do Nordeste estabelecidos no município, registros que fazem referência ao assunto apontam que eles estavam em grande número na cidade. O jornalista e memorialista da região do Grande ABC, Ademir Medici, assegura que, em certos bairros do município, a presença nordestina se sobressaiu, como, por exemplo, no Bairro Nova Gerty, que, na sua concepção,

[...] representa a nova São Caetano e a síntese do processo migratório experimentado pela região do ABC, a partir da expansão industrial da era da produção de automóveis, da década de 1950 para cá. O bairro nasce migrante, com uma multiplicidade de loteamentos urbanos rasgados numa área que, em séculos passados, abrigou sítios e fazendas e que, a partir do final do século XIX, recebeu lotes coloniais destinados a imigrantes europeus (1993, p. 455).




O fato de o Bairro Nova Gerty ter concentrado grande número de nordestinos, assim como o Bairro São José, não significa que as demais regiões da cidade não tenham apresentado, entre os seus habitantes, grupos oriundos do Nordeste. Pelo contrário. Em matéria publicada na edição de 18 de dezembro de 1954 do Jornal de São Caetano, o médico Manoel Gutierrez Durán fez uma análise acerca do perfil dos atendidos pelo Pronto Socorro Municipal, cujas atividades tinham se iniciado há apenas três meses, quando da publicação da aludida matéria. As considerações feitas por ele apontam o quão maciça era a presença nordestina em São Caetano do Sul, na década de 1950:

Si São Paulo é a ‘cidade que mais cresce no mundo’, S. Caetano do Sul é o município de maior aumento vegetativo no Continente. Poucas cidades haverá, talvez, no Universo, que apresentem um crescimento demográfico de tal forma impressionante; não devido ao crescimento normal de sua população estável, mas, e principalmente, às levas imensas, de retirantes que, dia-a-dia, chegam ao ‘Príncipe dos Municípios’. Já o dissemos uma vez e o reafirmamos aqui: não há nada como um Pronto Socorro para se medir a intensidade dos movimentos sociais especialmente das camadas menos favorecidas. Em 3 meses de serviço: atendemos a mais de 1.800 consultas. Pois bem: cerca de 75% era gente do Nordeste. [...] O Pronto Socorro, algumas manhãs, nem parece uma repartição de S. Caetano do Sul – Estado de São Paulo – parece um Pronto Socorro de Garanhuns, Caruarú, Alagoa de Baiqo ou Palmeira dos Índios (1954, 1ª página).

A transformação de São Caetano numa cidade de perfil essencialmente industrial reforça a matéria acima, na medida em que explica a alta porcentagem de nordestinos. Para acompanhar o crescimento demográfico verificado durante a primeira metade do decênio de 1950, para o qual a chegada de novas levas de migrantes nordestinos contribuiu imensamente, os loteamentos antigos da cidade precisaram sofrer sucessivos retalhamentos até, pelos menos, o final da década de 1960. Em decorrência disso, houve um aumento da oferta de lotes populares, o que acabou facilitando a entrada de migrantes nordestinos em diversas áreas do município. Esse quadro respalda, assim, a afirmação do baiano Raimundo da Cunha Leite, um dos fundadores e antigos diretores da Brasil Unido, segundo a qual, aproximadamente 50% da comunidade de São Caetano do Sul era representada por seus conterrâneos, “em especial na nascente Vila Gerty”, no início da década de 1950 (2002, p. 53).

Reforçam ainda as estimativas todas as marcas e sinais deixados por esse povo no tecido urbano local, como, por exemplo, os resultantes de suas trajetórias e inserção no próprio mercado de trabalho de São Caetano. Na medida em que as dificuldades iam surgindo, no processo de instalação dos migrantes em seu novo espaço de moradia e vivências, a necessidade do amparo tornava-se mais latente. Esse quadro ficaria ainda mais problemático em face das conjunturas históricas vigentes na localidade, no início dos anos 1950. Problemas ligados à infraestrutura urbana e a outros aspectos básicos do viver na cidade, como os relativos aos segmentos da saúde pública e da assistência social, originariam um cenário propício à atuação da Sociedade Beneficente Brasil Unido.

Quando houve a sua criação, em 1950, São Caetano era apenas um recém-município, visto que sua autonomia política em relação a Santo André havia sido conquistada, por força do plebiscito de 24 de outubro de 1948, após intensa campanha junto à sociedade local. Por força dessa situação, a resolução de questões de infraestrutura urbana era o grande desafio que se impunha ao Poder Executivo local.

De acordo com os resultados do censo realizado em 1950, dos 65 municípios paulistas criados pela Lei nº 233, de 24 de dezembro de 1948, o de maior densidade demográfica era São Caetano do Sul, com 60.200 habitantes. Comparando-se com os números apresentados por municípios antigos e já tradicionais, como Araçatuba, Guaratinguetá, Pinhal, Lorena, Caçapava, dentre outros, São Caetano colocou-se à frente, com uma vantagem significativa (NUZZI FILHO, 1951, p. 3).

Com uma alta densidade demográfica, o município não tardaria a apresentar grande deficit em sua infraestrutura urbana, cujas demandas, muitas vezes, eram veiculadas em tom de denúncia e cobrança pela imprensa local. Os problemas mais comuns eram relativos à deficiente distribuição de água e energia elétrica, ao estado de abandono das vias públicas, dentre as quais muitas não tinham recebido sequer calçamento, e à precária situação da rede de esgoto.

No início de 1951, o Jornal de São Caetano, ao publicar matérias que revelavam esse estado de coisas, colocava-se na qualidade de porta-voz dos interesses sul-sancaetanenses. Em uma dessas matérias, em janeiro daquele ano, o articulista Theophilo de Souza Carvalho teceu críticas à Administração Pública Municipal, apontando os melhoramentos prioritários para a população. Suas considerações fornecem um panorama acerca da realidade do município, pouco mais de dois anos após sua emancipação política em relação a Santo André:

À medida que os dias correm, as necessidades locais começam a fazer ponto saliente na cidade e é mister, por isso, que os poderes públicos se movam no sentido de atender aos justos reclamos da população. [...] Muita gente acha que ainda é cêdo para termos tudo quanto é necessário à vida regular de um município como o nosso, onde quase tudo está ainda por fazer. Entretanto, há certos melhoramentos que estão na pauta da urgência para serem atacados. Isto sem falar na rêde de água e esgotos, no calçamento da cidade, no aumento da iluminação pública [...] Já tivemos em certa ocasião oportunidade de escrever alguns comentários a respeito da falta de defesa para a cidade. [...] defesa, também, contra os possíveis surtos de epidemias capazes de surgirem de uma hora para outra, em vista do estado pouco lisonjeiro em que se encontra a higiêne da cidade [...] (1951, última página).

A questão da higiene pública era, de fato, alarmante em São Caetano. A matéria Olhai os bairros, senhores, publicada na Folha do Povo, jornal cuja circulação era de uma abrangência maior, visto que circulava em Santo André, São Bernardo e na própria cidade de São Caetano, abordou o assunto, destacando três bairros do município em que o problema estava mais notório. Vale lembrar que dois deles, Vila Gerty e Vila São José, apresentavam, entre os seus moradores, um grande número de nordestinos:

“Os bairros proletários desta cidade poucos benefícios gozam dos poderes públicos. Para não citarmos todos, citemos Vila São José, Vila Gerti e Vila Barcelona. Esses bairros são lembrados apenas pelos políticos em vésperas de eleições, porque no demais, neles tudo são abandono e sujeira.” (TOLEDO, 1953, última página).

As más condições de higiene, aliadas ao incipiente serviço municipal de limpeza, deixavam os moradores de São Caetano, sobretudo os de baixa renda, expostos a doenças e a epidemias, o que era extremamente preocupante, uma vez que a cidade ainda não contava com serviços médico-hospitalares na época da publicação das duas matérias citadas acima. Somente em 1954 seria criada a Diretoria de Assistência Social e, com ela, a prestação de serviços médicos gratuitos aos munícipes.

Diante do que foi exposto, é possível ponderar que a realidade de São Caetano do Sul era propícia ao associativismo de cunho assistencial, como uma forma de suprir as lacunas que não tinham sido ainda preenchidas pela Administração Pública Municipal. Não foi à toa que o início da década de 1950 marcou o surgimento, na cidade, de entidades beneficentes, como a Associação de Proteção e Assistência à Maternidade e Infância (Apami) e o Rotary Club, além, é claro, da Brasil Unido.

Os problemas decorrentes da falta de estrutura urbana adquiriam uma dimensão ainda maior em relação ao migrante nordestino. As condições sob as quais este chegava à cidade já eram caóticas, e, quando estabelecido, ele acabava enfrentando inúmeros outros obstáculos, como os relativos às dificuldades para obtenção de emprego, por conta de sua baixa ou nenhuma escolaridade. Tal situação, reforçada também pelo fato de, muitas vezes, o migrante não apresentar os documentos imprescindíveis ao ingresso nas empresas, desencadeava outros problemas, como um círculo vicioso: desemprego, falta de dinheiro e comprometimento das condições de vida, como má alimentação e saúde debilitada. E para agravar, a esta somava-se a ausência de assistência médica gratuita na cidade, pelo menos até 1954.

Raimundo da Cunha Leite, mais uma vez, fornece um relato precioso. Ao recordar a situação dos nordestinos recém-chegados a São Caetano do Sul, expõe, taxativamente: “Faltava-lhes tudo, desde documentos a um lugar para se abrigar, terminando, via de regra, embaixo dos viadutos” (2002, p. 55). Essa questão, aliada à do quadro conjuntural do município, torna compreensível o surgimento da Sociedade Beneficente Brasil Unido. A conjugação de todos esses fatores deu origem a um cenário propício à sua atuação. Os meios que pautariam suas iniciativas ganhariam sentido em face das conjunturas históricas, que, assim, funcionariam como elementos ressonantes da atuação da entidade.

Mutualismo e filantropia: as duas faces do amparo promovido pela entidade

Diante das muitas carências, as associações beneficentes, por meio de suas ações, buscavam prestar auxílio, principalmente de natureza material, à parcela da população que mais se ressentia da falta de infraestrutura urbana e de serviços na localidade.

Com a Brasil Unido não foi diferente. Sua finalidade precípua consistia no amparo ao migrante nordestino. E este não precisava ser associado à entidade para receber auxílios. Os benefícios prestados aos não associados configuravam práticas filantrópicas, as quais, conforme Ronaldo Pereira de Jesus, “[...] visavam oferecer socorro aos necessitados sem que da parte destes houvesse contrapartida financeira” (2007, sem paginação).

Na concepção de Cláudia Maria Ribeiro Viscardi, a relação social decorrente da filantropia “tende a ter um trajeto verticalizado, no qual o doador estabelece com o receptor uma hierarquia, cujo tom, à revelia das intenções ou motivações, será o do poder de quem doa sobre quem recebe. Nessa situação, o receptor se encontrará submetido ao doador, mesmo que este último não se utilize da relação em seu próprio proveito.” [2009, p. 293]

Por outro lado, nas práticas mutualistas, observava-se a tal da contrapartida financeira, garantidora de benefícios resultantes de situações adversas, como nos casos de desemprego, doença ou morte. As ações dessa natureza pressupõem “relações de reciprocidade que tendem a ser mais balanceadas. Todos contribuem e todos recebem a contribuição. Realçam o ethos da obrigação mútua e a responsabilidade coletiva pelo bem-estar dos outros. Nesse contexto as relações tendem a ser mais horizontalizadas, e as hierarquias, menos definidas. A dependência persiste, mas assume um caráter mútuo” (VISCARDI, 2009, p. 293).

Vale notar que, se as iniciativas de cunho filantrópico da Brasil Unido destinavam-se a migrantes não associados a ela, as de caráter mutualista estavam voltadas aos membros de seu quadro associativo. Embora a cúpula dirigente da entidade tenha atribuído duas orientações distintas à promoção do amparo, tanto a filantropia quanto o mutualismo foram as vias eleitas para o enfrentamento das conjunturas históricas. Ambas podem, nesse sentido, ser concebidas como estratégias de sobrevivência e de fortalecimento do grupo que presidiu os trabalhos iniciais da Brasil Unido. Para Michel de Certeau,

A estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e ser a base de onde se podem gerir as relações com uma exterioridade de alvos ou ameaças (os clientes ou os concorrentes, os inimigos, o campo em torno da cidade, os objetivos e objetos da pesquisa etc.). Como na administração de empresas, toda racionalização ‘estratégica’ procura em primeiro lugar distinguir de um ‘ambiente’ um ‘próprio’, isto é, o lugar do querer e do poder próprios (1994, p. 99).

Partindo dessas ponderações, a Sociedade Beneficente Brasil Unido pode ser concebida como o lugar por meio do qual os seus dirigentes instituíram e articularam, estrategicamente, ações mutualistas e filantrópicas, tendo em vista uma exterioridade, representada, no caso, pela sociedade de São Caetano do Sul.

Apesar das distintas circunstâncias, contextos e cenários históricos em que apareceram e atuaram, as associações de mútuo socorro eram pautadas por iniciativas que visavam, primordialmente, à concessão de amparo e proteção aos seus afiliados. Em vista disso, o associativismo praticado e fomentado sob a bandeira do mutualismo pode ser interpretado e compreendido enquanto um sinalizador de adversidades e problemas verificados em um determinado tempo e espaço. Os obstáculos encontrados por um grupo ou categoria social, em seu correspondente raio, segmento ou âmbito de relações, foram a mola propulsora do mutualismo, a sua razão de ser.

O quadro conjuntural adverso de São Caetano do Sul contribuiu para a instituição de uma orientação mutualista, por parte da Brasil Unido, na promoção do amparo ao migrante. Embora a referida orientação tenha sido implantada em um momento considerado pelos estudiosos do assunto como sendo de recuo e esvaziamento das entidades mutuais, em razão da vigência de um Estado gerenciador de uma política previdenciária voltada para a seguridade social, a permanência de práticas mutualistas era de extrema importância, ainda mais se levadas em conta as constantes denúncias relativas à inoperância e ineficiência daquela política. Somadas a isso, se encontram as questões não só de caráter material, mas também as de fundo humano e moral, dentre elas, as ligadas à disseminação de práticas preconceituosas contra os nordestinos.

Diante dessa convergência conjuntural, torna-se compreensível e justificável a instituição, por parte dos primeiros dirigentes da Brasil Unido, do seguinte objetivo, expresso pelo item 3º do artigo 1º de seus estatutos: “Auxiliar, moral e materialmente, os seus associados” (1950, p. 1). Entre as motivações dos auxílios morais proporcionados pela entidade, estava o preconceito sofrido pelos migrantes.

Conforme endossa o baiano Cunha Leite, os nordestinos instalados na cidade “defrontaram-se com situações constrangedoras. Falta de moradia e dificuldades na obtenção de emprego foram alguns dos problemas, não apenas pela baixa qualificação, mas também devido ao preconceito. Tudo isso levava aquela gente a um verdadeiro estado de miserabilidade” (2000, p. 68).

Se, por um lado, o amparo moral era deflagrado pela observância de questões atreladas à existência de preconceito em relação aos nordestinos, o amparo material fazia-se necessário frente a situações de doença de sócios da entidade e de morte destes. Nos casos de doença, a Brasil Unido reservava ao seu associado o direito de receber, semanalmente, uma pensão e uma visita médica, desde que ele se encontrasse impossibilitado de trabalhar a juízo de médico da Sociedade. Dentre os registros de práticas mutualistas lançados no Livro de Beneficências da entidade, entre os anos de 1951 e 1954, a maior parte deles refere-se a auxílios monetários por doença, conforme o destacado abaixo:

“São Caetano do Sul, 30 de Janeiro de 1952.
Nesta data, a Sociedade Beneficente Brasil Unido, prestou auxílio ao seu socio João Belarmino de Souza, ordenando e pagando uma visita medica feita pelo Dr. Oseas Fialho, de acordo com o artigo 9, itens 1 e 2  dos seus Estatutos” (1952, p. 11; 1950b, p. 3-4).

Quanto aos casos de morte de membros de seu quadro associativo, a Brasil Unido garantia aos seus familiares o recebimento do auxílio funeral, previsto pelo artigo 17 da primeira versão de seu regimento estatutário, e também a instituição de pecúlio, nos termos do artigo 18 de tal regimento. Preceituava ele que só recebia o referido benefício o sócio admitido acima de 90 dias pela entidade. O valor do pecúlio era fixado de acordo com o número de sócios existentes. A eles cabia o pagamento de um sinistro na importância de Cr$ 10,00 (dez cruzeiros) por óbito ocorrido. O prazo estabelecido para tal era de 30 dias, a contar da data do falecimento do associado, de acordo com o que dispunha o artigo 19 dos estatutos da Brasil Unido (1950, p. 6-7).

Além dos benefícios destacados acima, os quais eram tradicionalmente assegurados pelas associações de mútuo socorro, de uma forma geral, outros foram ainda concedidos pela Brasil Unido, firmando-se como garantias peculiares ao mutualismo praticado por ela, como, por exemplo, as concessões de empréstimos financeiros e o encaminhamento de cartas de referência a empresas da região para sócios que buscavam colocação no mercado de trabalho.

No que concerne à filantropia, a outra face do amparo proposto pela Sociedade Brasil Unido, cumpre salientar que ela também ganha sentido em face das conjunturas e condições históricas verificadas no município de São Caetano do Sul. Como ocorria com as práticas mutualistas, as relações desencadeadas pelas iniciativas filantrópicas também evidenciavam as diferenças existentes entre os dirigentes e os migrantes nordestinos recém-chegados à cidade. Contudo, tais diferenças não eram motivadas e alimentadas pelo vínculo associativo que unia os sócios da Brasil Unido em torno de sua cúpula. No caso da filantropia, o amparo não dependia de uma ligação formal ou oficial do migrante com a entidade. Portanto, os benefícios destinavam-se a ele diretamente, sem a mediação das garantias advindas do associativismo, as quais, para serem usufruídas, exigiam o pagamento de mensalidades por parte dos membros da entidade. Em outras palavras, os destinatários de suas práticas filantrópicas não precisavam dispor de nenhuma quantia para o usufruto delas.

Embora a execução da filantropia não estivesse inserida nas formalidades típicas do associativismo, os mecanismos de poder que ela compreendia eram tão incisivos quanto os inerentes ao mutualismo, pois também eles atuavam no sentido do reforço do status e das diferenças entre os que doavam e os que recebiam.

As práticas filantrópicas da Brasil Unido são indicativas da realidade dos migrantes nordestinos, a qual, em razão de ser revestida por problemas, dificuldades, carências e precariedades, já os colocava numa situação de adesão frente às ações dos dirigentes da entidade. Estes, por força de uma condição socioeconômica favorável, apresentavam-se em plenas condições não só de comandar os rumos da associação, mas também de gerir a distribuição da filantropia.

O gerenciamento das práticas filantrópicas fazia emergir dois mundos bastante distintos: o dos membros da direção da Brasil Unido, dotado de projeção social e material, e o dos recém-chegados do Nordeste, desprovidos das condições mínimas necessárias à sua inserção na sociedade de São Caetano, quer pela ausência de dinheiro e emprego, quer por motivo de doença e por falta de grau formal de instrução desses migrantes. A lógica inerente a tais situações tão díspares explica a adesão dos migrantes em relação às ações filantrópicas provenientes da Brasil Unido, ao mesmo tempo em que evidencia as vantagens, em termos políticos e sociais, que podiam ser auferidas pelos integrantes de sua cúpula, enquanto promotores de atos caritativos e beneficentes.

A dura realidade na qual estava imerso o migrante nordestino era a polarizadora da face filantrópica da associação. Dessa forma, suas iniciativas de cunho filantrópico eram norteadas pelos problemas e mazelas que afetavam, comumente, aquele migrante, em seu cotidiano, em São Caetano. As ações que se constituíram na marca registrada da filantropia promovida pela entidade eram traduzidas, predominantemente, pelas concessões de abrigo, alimentação e auxílios monetários, além das providências tomadas no sentido da obtenção de documentos, emprego e tratamentos médicos para os seus migrantes amparados.

Para concretizar, efetivamente, todas essas ações, a Brasil Unido recorria à sua rede de contatos e relacionamentos, da qual faziam parte pessoas físicas e jurídicas. Dentre estas últimas, estavam instituições de referência local, como clubes recreativos e esportivos e entidades culturais e beneficentes, além das de abrangência nacional, como o Serviço Social da Indústria (Sesi), patrocinador dos cursos de alfabetização de adultos e de corte costura oferecidos, gratuitamente, pela Brasil Unido, a partir de 1951.

Por força de tudo o que a Sociedade Beneficente Brasil Unido defendeu, incorporou e propagou, ela se torna emblemática da própria história da presença nordestina no município de São Caetano do Sul. Neste artigo, foram apresentados somente alguns dos principais aspectos de sua política de amparo. Outras questões que também marcaram a atuação da entidade poderão, em outra ocasião, ser discutidos, de modo a possibilitar ao público a continuidade do acesso aos demais capítulos da história da Sociedade Beneficente Brasil Unido, ponto de partida para a compreensão das próprias especificidades que envolveram os processos de deslocamento e instalação de migrantes nordestinos em solo sul-sancaetanense.

Notas
1 - O presente artigo é parte integrante das discussões realizadas na dissertação de mestrado Migrantes amparados: a atuação da Sociedade Beneficente Brasil Unido junto a nordestinos em São Caetano do Sul (1950-1965), defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), no dia 17 de maio de 2012.
2 - Nas transcrições mantivemos a grafia original.
3 - Jorge de Souza Muniz Ferreira, Humberto Fernando Forte, Oséas Fialho, Arthur Estrella de Souza, Francisco Afonso Carvalho, Orlando Souza, Antônio Pereira Pontes, Aprígio Bernardino de Salles, Pedro Hermenegildo, Bernardino Borges de Salles, José Bernardino Cunha, Everaldino Alves de Carvalho e Caio Estrella de Souza.

Referências

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CUNHA LEITE, Raimundo da. Dois de julho de 1950: nascia a Sociedade Brasil Unido. Raízes, São Caetano do Sul, nº 22, p. 68-71, dez. 2000.

CUNHA LEITE, Raimundo da. Memórias – Raimundo da Cunha Leite (1923-1993). São Paulo; São Caetano do Sul: Alendaarte, 2002.

DURÁN, Manoel Gutierrez. Beliscos e piparotes. Jornal de São Caetano, São Caetano do Sul, ano IX, nº 483, 1ª página, 18 dez. 1954.

JESUS, Ronaldo Pereira de. Mutualismo e desenvolvimento econômico no Brasil do século XIX. Oidles, Málaga, v. 1, nº 1, sem paginação, set. 2007. Disponível em: <http://www.eumed.net/rev/oidles/01/Pereira-resum.htm>. Acesso em: 12 abr. 2011.

MEDICI, Ademir. Migração e urbanização: a presença de São Caetano na região do ABC. São Paulo: Hucitec; São Caetano do Sul: Prefeitura Municipal de São Caetano do Sul, 1993.

NUZZI FILHO, José. Estatística demográfica. Jornal de São Caetano, São Caetano do Sul, ano V, nº 164, p. 3, 13 jan. 1951.

SOCIEDADE BENEFICENTE BRASIL UNIDO. Panfleto. São Caetano do Sul, 27 jun. 1950a.

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TOLEDO, João Batista de. Olhai os bairros, senhores. Folha do Povo, Santo André; São Bernardo do Campo; São Caetano do Sul, ano VI, nº 286, última página, 20 fev. 1953.

VISCARDI, Cláudia Maria Ribeiro. Estratégias populares de sobrevivência: o mutualismo no Rio de Janeiro republicano. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 29, nº 58, p. 293, 2009.

2 comentários:

  1. Quando vejo uma matéria como esta da Cristina Toledo de Carvalho, os artigos deste Blog, e o trabalho da Fundação Pró-Memória me faz pensar de como há coisas bonitas acontecendo neste país, diferente do que é amplamente divulgado nos meios de comunicação em massa. Parabéns. Willians

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  2. Obrigada Willians!
    É por concordarmos com você e acreditarmos no que divulgamos que nos esforçamos para fazermos tudo da melhor forma possível!
    Apareça sempre!

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