quinta-feira, 9 de maio de 2013

Olha o trem chegando...

Neste mês, a Fundação Pró-Memória promove a exposição virtual “Chegadas, partidas e história nos trilhos de São Caetano”, no site da entidade, em comemoração aos 130 anos da estação ferroviária de São Caetano, inaugurada em 1° de maio de 1883.

Neste espaço prestaremos uma outra homenagem à data com a crônica abaixo. Leiam, compartilhem e também nos contem suas lembranças deste local!

HISTÓRIAS DE TRENS

A pequena linguiça metálica estaciona os seus vagões compridos em frente à plataforma de São Caetano do Sul repleta de passageiros. Gente que vai, gente que vem, se esbarra na porta de entrada. Cada um busca o seu lugar no trem que vai partir em minutos, segundos. Mudam os tempos, muda a forma do trem, ele se torna mais colorido, ágil e cheio, mas a despedida é a mesma e a expectativa de quem parte não muda...

Priscila Gorzoni*

Não são nem dez da manhã e a estação de trem de São Caetano já está cheia. Pessoas cheias de bagagens, famílias grandes, mulheres de idade se distribuem pelos bancos da plataforma que lembram as douradas épocas das viagens de trens. Boa parte das pessoas toma o mesmo rumo que eu, a estação do Brás, onde milhares de passageiros descem para fazer suas compras desde o século passado.

Mas de lá pra cá muita coisa mudou. Uma delas é a opção de classes. Me lembro claramente da descrição do trem de segunda classe em um trecho do livro "Anarquistas Graças a Deus", de Zélia Gattai. Tive a maior surpresa ao descobrir que Zélia descrevia a viagem de sua mãe para uma chácara em São Caetano, onde morava o seu Tio Gígio. No livro, ela ainda conta como era complicado chegar nos lugares, que eram distantes e se localizavam em estrada de terra.

Essa mesma estação que nasceu no dia 1° de maio de 1883 carrega muitas histórias, narrativas de meus pais, tios e personagens conhecidos da cidade. Um deles é Assunta Ferreira Veronese, de 95 anos, que ainda ontem me contava como era a estação. E eu, com muito entusiasmo, preparei os ouvidos para absorver tudo o que a quase centenária senhora de olhos azuis narrava em voz branda.

Em uma de nossas conversas, ela me disse que a estação era bem diferente do que é hoje. Havia duas porteiras em suas laterais, uma de saída e outra de entrada, e para não haver confusão um guarda ficava ali cuidando da passagem. Os trens não passavam toda hora como atualmente, mas algumas 
vezes por dia. Naquela época, nos anos 1920, ele era o único coletivo que levava os moradores de São Caetano para trabalharem e estudarem em São Paulo. Ele era o coletivo mais procurado. Dona Assunta se lembra muito bem dele. Quando pergunto sobre a estação, ela me olha com um brilho no olhar e já começa a contar como era a sua rotina dentro deles.

Ela, melhor do que ninguém, sabe como era, pois os usou durante mais de quatro anos, durante os tempos em que estudou no Colégio do Brás. Morava na Rua Amazonas que era cercada por mato e, para não se atrasar, ela e a irmã pegavam uma jardineira até a estação. Lá chegavam bem antes das 7 horas da manhã e esperavam o trem. “Naquela época não tinha o perigo, todo mundo se conhecia. As crianças costumavam brincar dentro das estações de trens”, conta animada.

Fora isso, o trem era sem dúvida o transporte mais usado e trazia um fluxo grande de pessoas de outras cidades, principalmente de São Paulo. Dona Assunta se lembra muito bem de quantas pessoas desciam na estação para pegar o bondinho e ir até 
a casa do curandeiro Vicente. “Eles chegavam pela manhã e nós morávamos exatamente onde desciam. Minha mãe, sempre educada, ficava com dó e oferecia-lhes café. Com o tempo, passou a ganhar dinheiro com isso e até colocaram um bondinho para levar toda essa gente para o curandeiro”, relata. Hoje, quando olho em volta e vejo as crianças que partem nos trens, nenhuma está sozinha e o transporte já não é mais tão seguro quanto no tempo de Dona Assunta. Fico imaginando como seriam naquela época as paisagens da janela. Na certa não seriam como as de hoje, mas com uma natureza viva, mais mato do que as ruínas das fábricas abandonadas e dos vagões quebrados.

Também são comuns em todas as viagens os comerciantes dos trens. Eles vendem de tudo, de revistas de medicina caseira a pacotinhos de amendoins. Entram clandestinamente dentro dos vagões e ganham o seu dinheirinho suado.
No passado, o trem sempre foi sinônimo de requinte e romantismo. Segundo Caetano Grecco, 80 anos, que morou durante toda a sua infância a 50 metros da estação, ela era linda. “Tinha uma breve semelhança com a estação da Luz. Ela era toda feita de tijolos aparentes e sua arquitetura era inglesa. As plataformas eram amplas e os portões, inicialmente de ferro. O que fazia barulho era quando os trens passavam. Naquele tempo, as locomotivas eram movidas a carvão coqui, que vinha do Chile, mas em 1939, durante a Primeira Guerra Mundial, o carvão faltou e criou-se um grande problema. Depois de um tempo, passaram a ser alimentados pelas lenhas”, relembra. Só mais tarde, a linha passou a ser elétrica, como é atualmente.

Seu Grecco morava próximo da estação, que ficava perto das Indústrias Matarazzo, por isso as pessoas diziam que a estação ficava na 'curva do Matarazzo'. Mais para a frente ficavam as casas dos funcionários da ferrovia. A estação começava na Lapa e ia até depois de Jundiaí. De lá se iniciava a estada de ferro Paulista e, de Campinas, saía a Mogiana até Poços de Caldas.

O pai de Seu Grecco era um artesão talentoso, que montava sapatos manualmente e, por isso, precisava ir ao Brás constantemente para comprar materiais. “Com apenas 9 anos, meu pai me dava escrito em um papel o que era para trazer e então eu ia até o Brás e voltava. Eu me sentava em um banco de palha revestido por franjas. O mesmo bilhete servia para ida e para a volta e só se pagava uma vez, 300 réis. Os horários dos trens eram de acordo com as circunstâncias, porque muitos trabalhavam em São Paulo. A maioria das paradas que temos hoje não existia naquela época. Uma delas é a Tamanduateí. Em Utinga era tudo terreno alagadiço. As estações Ipiranga, Lapa, Barra Funda e Brás tinham um fluxo grande naquela época. Em volta, aqueles terrenos eram todos de cidadãos de São Caetano. Eu que os registrei no cartório. Nos finais de semana, íamos passear em Santos. Então tomávamos o trem em Santo André, às 6 horas, para pegar o expresso das 6h30. Chegávamos em Santos, às 8 horas da manhã, e ainda éramos brindados por uma paisagem esplendorosa. Quando chegávamos em Cubatão, avistávamos aquelas imensas plantações de bananas e os barcos retirando-as para a exportação. Depois de um tempo, colocaram um trem chamado Cometa, que passava em horários especiais. Ele tinha três vagões e saía de São Paulo, parava no Brás, depois em Santo André, em Ribeirão Pires, até chegar no Alto da Serra. De lá, saía para Santos. No início, a estação tinha duas porteiras e um guarda que as fechava. Com o tempo construíram os túneis subterrâneos. Na ferrovia moravam vários funcionários, entre eles, o chefe da estação, que usava um chapéu vermelho. Eles tinham suas casas ao lado. Fora isso, os trens eram cenários românticos que alimentavam vários casais”, narra Grecco.

Foi também nesse ambiente que meus tios se conheceram. Me lembro de ser ainda uma menina e ver minha tia, que veio do interior para morar conosco, sair todos os dias pela manhã portando uma pasta comprida, cheia de folhas A4 e lápis aquarelados. Ela fazia faculdade de artes plásticas em São Paulo e não perdia uma aula.

Naquela época, anos 1960, a faculdade ficava próxima da estação da Luz. Depois de um 
tempo, minha tia anunciou seu casamento com um rapaz, estudante de contabilidade, que também morava em São Caetano. Mais tarde fiquei sabendo que eles haviam se conhecido na estação de trem de São Caetano.

Meu tio me contou que pegava sempre o trem no mesmo horário de minha tia e, um dia, reparou nela com mais atenção. Passou então a observá-la. Demorou um certo tempo para que ela percebesse a sua presença. Então, ele começou a fazer a corte e a conquistou. Hoje o trem de São Caetano já não tem todo esse glamour de antigamente, os tempos são outros e a visão de mundo também mudou. Mas ele continua sendo um dos meios mais econômicos de locomoção e, em muitos casos, um belo passeio, como os trens que vão de Belo Horizonte a Vitória, um dos últimos a fazer um trajeto tão longo.

Aliás, é dele que me lembro quando ouço todas essas histórias antigas de São Caetano. Imagino que as viagens de antigamente tivessem o mesmo charme do centenário BH X VITÓRIA. Ele faz um percurso de 664 quilômetros, percorre 25 estações, em 13 horas, entre as cidades mineiras e capixabas. Além dele, só resta o de São Luís, no Maranhão. As duas linhas regulares do país somam 1.500 quilômetros e transportam 1,2 milhão de passageiros por ano e despertam para a realidade distinta do Brasil. Era então o mês de fevereiro quando resolvi experimentar a viagem. Peguei um ônibus de São Caetano até Belo Horizonte e, de lá, peguei o trem.

RECORTANDO MINAS GERAIS

Cheguei na estação perto das 7 horas da manhã, mas os portões ainda não estavam abertos. Dali a pouco foram escancarados e as pessoas já se acotovelavam atrás da plataforma que indica o número e a letra do vagão do trem.

Esse trem é semelhante ao de São Caetano nos tempos antigos, porque também é separado por classes: a executiva possui um maior conforto, janela fechada e serviço de lanchonete e custa um pouco mais: R$ 41. Já a econômica, que não possui janelas e nem serviço de bordo, é metade do preço (R$ 26,90).

A viagem está marcada para às 7h30, mas atrasou. Enquanto os funcionários tentam organizar a entrada, o trem chega quase às 8 horas. Mas vale a pena. Quando o trem parte, o que se vê é uma parte de Belo Horizonte, mas logo a paisagem vai se modificando e é tomada por pastos. Das janelas fechadas se ouve um pouco do barulho lá de fora e o movimento rápido de quem fica atrás dela. A cada estação que o trem para, percebemos uma dinâmica completa dentro e fora do trem.

Percebo como é mais fácil compreender as realidades diferentes do país através de uma viagem de trem. Que pena que esse transporte não impera mais...

LINHA DO TEMPO:

1883 - Inauguração da estação ferroviária de São Caetano do Sul.
1884 - A São Paulo Railway emite três mil bilhetes de trens para os romeiros que vem a São Caetano através das estações Brás e Luz.
1885 - O inglês William Speers, superintendente da São Paulo Railway, publica anúncio com informações sobre os trens especiais de São Paulo para São Caetano nos dias 15 e 16, dia do padroeiro da capela local.
1893 - São criados vários horários de trens para os dias da semana e finais de semana. A passagem de primeira classe de São Paulo para São Caetano custava 880 réis. A de segunda, a metade dessa cifra. Já as encomendas iam pelo preço de 750 réis.
Horários: nos dias úteis: da Capital para Santos (parada em São Caetano) 8h32, 9h17, 17h23 e 18h25. Aos domingos, todos os horários valiam, menos o último. 
1895 - A São Paulo Railway contrata a duplicação da ferrovia para ser realizada até o final de 1898.
1933- Inauguração da estação de Utinga.

BIBLIOGRAFIA:

Gattai, Zélia: Anarquistas Graças a Deus.

Martins, José de Souza- Diário de Fim de Século: notas sobre o núcleo colonial de São Caetano do Sul no século XIX, Fundação Pró- Memória.

Médici, Ademir: Migração e Urbanização: Presença de São Caetano na região do ABC, Editora Hucitec.


* É jornalista e pesquisadora formada pela Universidade Metodista de São Paulo. Cursou ciências sociais pela USP (Universidade de São Paulo) e direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem pós-graduação latu sensu em fundamentos e artes pelo Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de São Paulo e atualmente faz mestrado em história com um projeto de antropologia histórica pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo. Como jornalista, escreve para as revistas National Geographic Brasil, da Editora Abril, História em Curso, da Editora Minuano, e tem várias publicações em revistas de distribuição nacional, como Época, Isto É e Planeta. É autora de sete livros, entre eles "Abre as portas para os Santos Reis", da Editora Fundação Pró-Memória, "Os benzedores que benzem com as mãos", pela Editora UCG, "Animais nas Batalhas", pela Editora Matrix, e "O almanaque das curiosidades de São Caetano do Sul", da Fundação Pró-Memória. Faz parte da Associação Brasileira do Folclore. É também artista plástica com vários cursos na área, entre eles, artes visuais pela Fundação das Artes de São Caetano e escultura em madeira e cerâmica pelo Liceu de Artes e Ofícios.

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